segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Coluna Crônica Jornal de Caçapava: Estradas Nordestinas I.




(Jornal de Caçapava, 13 de janeiro de 2012.)

Há alguns anos, nos aventuramos em viagens para o Nordeste do Brasil. Viajamos de carro para podermos, realmente, conhecer a região. A cada temporada elencamos novas rotas, cidades e pessoas que nos ensinam muito. Recordo-me que na primeira vez que para lá nos dirigimos, recebemos muitas orientações e poucas delas se concretizaram, aliás, raríssimas. As estradas, sempre descritas como intransitáveis, nunca nos maltrataram. Talvez, devido à época de férias, tempo em que os governos se preocupam um pouco mais, de olho nos turistas. As hospedagens também sempre foram muito agradáveis.
Nossa aventura tem por que receber esta denominação. É aventura mesmo! Preparamos todas as tralhas das quais necessitamos, abastecemos filmadoras, câmeras fotográficas e computadores. Caneta, papel e alma repletos de vontade e partimos. Durante o caminho, há conquistas emotivas. Vamos pelo sertão e retornamos pelo litoral. Partindo de São José dos Campos, vou namorando o percurso do rio Paraíba do Sul. Depois, sempre atenta às casinhas bucólicas e aos pés de banana do interior do Rio de Janeiro. O cheiro de casa me invade em terras mineiras. Algumas cidades são paradas obrigatórias, entre elas: Anta, como não apreciar aquela exótica escultura? Também Caratinga, o Menino Maluquinho sempre lá, com aquela panela gigante protegendo o sótão cheio de macaquinhos, maquinando traquinagem e claro, o discreto restaurante ‘Chuletão’, onde a picanha mais bem feita de Minas Gerais está na ordem do estômago.
A estrada é uma de minhas grandes paixões, mas não gosto dos ‘retões’, gosto das estradas sinuosas, escondendo lindas paisagens, cantinhos que nos surpreendem de quando em quando. Apesar de meu estômago andar reclamando, porém nada que comprometa meu prazer. As casas e povoados invadem minha imaginação, as roupas nos varais, as galinhas nos quintais, janelas abertas, meninos correndo, gente vindo e indo, com suas ferramentas nos ombros ou nas garupas de bicicletas. A fumaça que sai das casinhas mais singelas, anunciando comida sendo preparada, geralmente me comove, mas ainda não compreendo esse fenômeno.
Depois de Teófilo Otoni, os povoados e as cidades ficam mais características. Os morros e as pedras mais intensos. Em alguns momentos tenho a sensação de que eles estão ali só para nos lembrarem o quanto somos pequenos diante do mundo. É uma natureza com impactante majestade. Senhora onipotente. É o espetáculo. A divisa entre Minas Gerais e Bahia é intrigante, um misto de sentimento de beleza e tristeza, a riqueza da Natureza e a pobreza dos homens, o apreciar do divino e a indignação do humano. Nunca consigo descrever o que me toma quando as fronteiras criadas por homens me comunicam que sai dali e estou aqui, mas a realidade me sacode para poucas mudanças.

(Continua)

Sônia Gabriel

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