sábado, 28 de janeiro de 2012

Coluna Crônica Jornal de Caçapava: Estradas Nordestinas II.




(Jornal de Caçapava, 13 de janeiro de 2010.)

Chegamos à Bahia, o caminho vai se carregando de um sotaque alegre e cheio de molejo, temos paisagens apaixonantes e outras que enchem os olhos de lágrimas. As cidades maiores não conseguem as lágrimas que os povoados motivam. Os caminhos entre o Litoral e o Sertão diferem-se pela ausência. Todas as ausências possíveis. São belezas diferentes, mas um toque de humanidade, mais temperado, invade a alma da gente e ela vai ficando melindrosa, sentido saudade de algo que não conseguimos entender, fazendo chorar. Ao menos, eu choro. Os sertões, desta feita, me calaram mais. Talvez a maturidade cause essa apreensão e minha opção por seguir pelo interior reforçou-se.
Festejado foi rever a Jequié da resistente dona Emília, amiga de minha avó e suas herdeiras; alcançar a Vitória da Conquista, descobrir lá a morada de Glauber Rocha; tatear o pitoresco encontro com a Ilhéus dos amores de Jorge Amado, ali, muito se revelou e Gabriela é onipresente! Esperado sempre, a visão do casario dos antigos povoados em direção ao Espírito Santo, despedindo-se da Bahia de Dona Canô e seus talentosos rebentos. Aquelas casas enfileiradas, brancas, iguais, cheias de histórias de colonos e seus eternos sonhos de fecundar a Terra. Os vejo labutando pela história deste país e fico aguardando o correr da molecada, sempre uma horta, se tem horta deve ter menino brincando no terreiro. Os colonos seduzidos pelo cacau, os fazendeiros recebendo os favores do cacau. Faz algum tempo.
Em Sergipe, pausa para apreciar a Orla da terra dos cajus, porém me estaria reservado mais, no retorno, eu encontraria com mais um rio de minha vida. O encantamento foi ficção pura. Sempre há algo novo para descobrir no Nordeste do Brasil, é inesgotável. Uma fonte sem fim de histórias, lendas, encontros que nos divertem, emocionam, indignam, fortalecem, pois ninguém sai como chegou, não há como estar indiferente ao contato real com a força de uma gente que luta, labuta e se mantém, apesar de toda a história de exploração e descaso.
Em Alagoas, depois de Major Izidoro, Cacimbinhas, Dois Riachos, Olivença, Olho D´Água das Flores, Jacaré dos Homens, Batalha, Arapiraca e incontáveis povoados, vi a terra rachando, os pastos secos, de quando em quando um alento verde, sol quente e seco. Vi gente trabalhando e acolhendo sempre com alegria. Vi cemitérios, discretos, singelos, pequenos. Alguns quase domésticos, contando seis, sete sepulturas. Vi quietude. Contei poucas igrejas, centenas de crentes, força divina nas palavras repetidas, como se fossem mantras, pelo povo. Não vi chuva, e admirei poucas lagoas.
Em todos os lugares, ouvi histórias, muitas nem sempre suportáveis...

(Continua)

Sônia Gabriel



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