terça-feira, 4 de junho de 2019

Crônica: Desejo muitas roupas usadas, muito usadas!





Coloquei algumas fotos em uma rede social e dentre elas, havia uma em que eu estava de vestido, chinelos e coque naquela moda “estou em casa”. Mas o vestido parece ter intrigado algumas conhecidas, pois uma delas me perguntou, mais diretamente, como eu tinha coragem de usar um vestido novo na terra. Eu fiquei muito pensativa sobre como os olhares podem ser intrigantes. Um dos pensamentos me levou a notar algo em mim que eu não tinha, ainda, prestado atenção.

Eu não tenho vestidos novos, ou melhor eu não tenho vestidos guardados só para algumas ocasiões. Geralmente, uso minhas roupas, sapatos e acessórios cotidianamente. Não compro uma roupa que terei que esperar algum momento específico para usar. Já que a questão foi sobre vestidos, sim, eu adoro vestidos. São práticos, não precisam de muito espaço para serem acondicionados e permitem mais conforto que mais peças ao mesmo tempo. Sou descendente de indígenas, não gosto de roupa. Por isso, amo a primavera e o verão, as estações dos vestidos.

Voltando ao tema, não espero uma ocasião para usar um vestido assim como não espero uma ocasião para presentear quem amo, para almoçar fora com familiares e amigos, para tomar café com as confidentes, para ajudar solicitantes, para beijar a face que me acolhe. Eu me arrumo para mim, para minha família, para meu amor, para meus alunos, para aqueles que me querem bem.

Não espere para gostar-se e, por consequência, gostar de tantos quantos queiram abastecer de amor esse mundo que caminha para um individualismo triste. De segunda a segunda, coloque sua melhor roupa, não espere por algo que já demora ou nem aconteça; faça a festa em seu coração, sorria de boca escancarada, mostre o mais bonito em você para si mesmo e depois espalhe. Não deixe nenhuma roupa nova lembrá-lo que você está na vida esperando... Reticências só nos textos. Sigamos um dia de cada vez vivendo de verdade, se possível.

Eu desejo que minhas bolsas se gastem, meus sapatos se rasguem, meus vestidos se desbotem de tanto uso, de tantas caminhadas, de tantas esperanças cotidianas de continuar fazendo valer a pena e o tinteiro acordar todos os dias junto com as manhãs. A tristeza, que um dia tocou em minha porta, não conseguiu entrar, pensou que eu saía para uma festa. Que nada! Ia ao supermercado cotidiano das existências simples, a minha existência.

Eu desejo que vocês não tenham "roupa nova", usem todas!


Sônia Gabriel



quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Crônica - Colares




Todo final de ano, eu faço uma revista em minha coleção de colares e distribuo. É um momento tenso, sim, muito tenso. Eu me obrigo a doar alguns, dez no mínimo. Se não fizer isso, terei que construir um quarto só para eles, algum dia, pois sempre ganho mais que distribuo. Eu desenvolvi um fascínio pelos colares. Guardo o primeiro que comprei. A partir daí, sempre que podia, adquiria mais um. Comecei pelos artesanais e pelos mais simples e com o passar dos anos, fui me encantando pelos mais elaborados.
Os amigos e parentes percebendo meu gosto pelo adorno passaram a me presentear e a coleção foi aumentando. Cheguei a ter 130 exemplares reunidos e, veio o estalo de que isso era um absurdo! Não tinha caixa e gaveteiro o suficiente para guardá-los, considerando que também gosto das pulseiras, anéis e brincos.
A questão do adorno sempre me fascinou, creio que por eu não saber ser vaidosa. Não sei  me maquiar, no cabelo faço o corte mais prático que existe: o bagunçado. As pessoas pensam que é estilo e eu sei que é falta de jeito. Os colares são, então, meus grandes aliados. Elegantes, práticos, despojados, delicados, exuberantes, alegres, sensuais... Não importa a roupa que coloco, adorno com um colar e pronto! Sinto-me arrumada!
No Museu do Louvre, eu vi alguns dos colares mais antigos do mundo e foi muito intrigante perceber que os gostos realmente não mudaram tanto. As peças em ouro, as pedras preciosas, o designer dos ourives de há milhares de anos ainda seduzem os olhares femininos. Consegui ver-me usando a maioria deles. O que enfeitava as rainhas e sacerdotisas hoje estão ao alcance de todas nós plebeias com metais menos nobres, mas de colorido e estilo igualmente belos. Viva as bijouterias!
Das barracas nas feiras de artesanato às barracas no comércio popular, das lojas temáticas às joalherias dos centros comerciais mais badalados, há colares para todos os bolsos e gostos. Eu pareço criança em loja de brinquedos diante da diversidade de colorido, forma, textura e imaginação. Sim, os colares aguçam nossa imaginação. Eles enviam recados, basta o exercício divertido de desvendar. Mas o recado principal é o cuidado de se gostar. Escolher um colar, aproximá-lo do pescoço, ver-se adornada por ele é saber-se bonita. E, saber-se bonita é um direito de todas nós. É isso, os meus colares me lembram que sou bonita para mim! Que sou bela com a minha idade, com as minhas características físicas, com as minhas cicatrizes, com a minha história.
Toda mulher é bela, está intrínseco em nossa condição feminina. A beleza se manifesta em cada uma de nós em nosso modo de encarar a vida, as batalhas cotidianas, as alegrias, as tristezas, as vitórias, os desafios; nós nos encontramos nos nossos detalhes mais íntimos, no nosso empoderamento por meio de escolhas. Há mulheres que escolhem como lembretes da sua beleza: roupas, sapatos, maquiagens, bolsas, brincos, pulseiras, anéis, cortes de cabelos, modos de sentar, modos de sorrir, jeitos de olhar... Eu escolhi os colares! Sem eles, me sinto tela inacabada, texto sem desfecho, manhã sem brisa...

Sônia Gabriel