segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Tempo de eleições - 2018



Podemos conversar? 


Como professora, aprendi que há um momento propício para a aula dialogada. Claro que aqui não é uma aula, mas creio que agora, nesta semana decisiva, é uma boa hora para esta prosa. Eu não discuto política por redes sociais, não por achar que não precisa, mas por ter espaços presenciais em que faço isso constantemente e prefiro. Sim, política faz parte da nossa vida diariamente e não se resume (mesmo) ao período eleitoral ou aos nossos interesses pessoais exclusivamente.
Mas estamos em período eleitoral, então, teço algumas considerações que peço me permitam compartilhar.
1- O voto é livre, secreto, individual, nós podemos nos manifestar sobre nossas escolhas - Por estarmos numa DEMOCRACIA, não esqueçamos disso.
2- Apesar do voto ser individual, ele não atinge apenas a nossa vida, pois vivemos em sociedade. Pensar nas necessidades coletivas é um dos maiores exercícios de cidadania.
3- O voto não é uma ARMA do eleitor, é um INSTRUMENTO do cidadão que deve ajudar a realizar as transformações que se espera que aconteçam.
4- Não pesquisar e valorizar nosso voto tem um preço muito alto com o qual arcamos por quatro anos até a próxima oportunidade. Não podemos ter preguiça. É muito importante procurar por nomes com os quais compartilhamos nossos ideais, trabalhos, valores e necessidades sempre pensando no coletivo. E, claro, não esquecer esses nomes depois do voto.
5- Precisamos conversar seriamente com nossos familiares, vizinhos e colegas sobre as eleições e os candidatos. É nosso papel não desanimar do nosso país. Todo o processo de descrédito favorece uma elite predatória que ainda "nada de braçadas" no Brasil. Conversar e discutir não é agredir, desrespeitar e desqualificar o voto diferente do nosso. Esse clima de tensão é desnecessário e enfraquece a força popular.
6- Finalizada a eleição, começa a parte mais difícil do voto, tendo eleito seus candidatos ou não: acompanhar, cobrar, questionar, participar, exigir que se realize o que foi proposto. NINGUÉM VAI SALVAR O BRASIL, NINGUÉM VAI GOVERNAR PARA NÓS BRASILEIROS TRABALHADORES EM EXCLUSIVIDADE, NINGUÉM VAI RESOLVER A NOSSA VIDA! Nós governamos juntos quando escolhemos e atuamos acompanhando e cobrando. Caso contrário, já vivenciamos que somos apenas número útil.
Não podemos mais permitir tanto desrespeito para conosco, somos trabalhadores! Não podemos mais permitir tanto desrespeito para conosco, somos cidadãos!
Boa semana para todos; boas reflexões para todos e que possamos chegar ao final do domingo com muita energia democrática, muito respeito pelas diferenças de pensamento e em paz! Sigamos!


Sônia Gabriel


terça-feira, 21 de agosto de 2018

domingo, 29 de julho de 2018

Diálogo docente - Memória e escola





Aconteceu recentemente em Porto Alegre, na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) o X Encontro Nacional Perspectivas do Ensino de História. Oportunidade de troca de conhecimentos sobre os saberes que se encontram e disputam espaços no Ensino de História. Um dos grupos de discussões oportunizou diálogo sobre memórias de professores. O tema tem se tornado recorrente em pesquisas e me ocorre que, talvez, nunca tenha sido tão propício. Da relevância óbvia para a apropriação cotidiana dos professores sobre a importância dos seus registros e reflexões sobre sua atuação e sobre os espaços desta atuação para as colocações cotidianas que reforçam a falta de tempo para tais registros, excessos de demandas ocupando o lugar de estudos e discussões que propiciariam uma atuação mais contundente, nas diversas áreas do conhecimento, fica, para esta professora, a questão da escolha cada vez mais difícil de atuar no magistério.

Se menos jovens estarem optando pela profissão de professores é um dado sobre parte da realidade da Educação no Brasil, como questões salariais e violência, os registros dos professores que estão atuando podem ampliar as possibilidades de entendimento do denominado “chão de escola”. A realidade diária moldada de 50 a 50 minutos em que o profissional em contato direto com a burocracia e interpretações das práticas direcionadas pode auxiliar a compreender.

Se nos debruçamos sobre as memórias construídas por professores de antanho, é preciso certa responsabilidade crítica de ajudar no entendimento da nossa escola relatando sobre nossos enfrentamentos e aprendizados atuais. Ainda creio que cabe a nós professores que atuamos em redes privadas e públicas da educação básica também escrever, contar, discutir sobre nossa atuação e a verdade das escolas por onde vamos contribuindo para a formação da nossa sociedade.


Sônia Gabriel
Professora e pesquisadora

(Foto: Internet)

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Série "Verdade de outro jeito" - Contos 3



Separação

Era uma blusa velha, encardida nos punhos e colarinho. 
Podia vestir outras, mas, ano após ano, ela a levara para o trabalho.
A cor já desbotara, as costuras desgastaram-se, o relaxo era íntimo.
Naquela tarde chuvosa, ela foi e a deixou vestindo a cadeira.
Uma semana depois, ela ainda não voltou.
Resignada, a cadeira é a única a acolher.

Sônia Gabriel


quarta-feira, 30 de maio de 2018

Série "Verdade de outro jeito" - Contos 2




Uma menina esquisita

Onde quase tudo faltava, havia um quintal, amor e fé.
A menina era esquisita, pois falava sozinha, contava histórias que o vento trazia de longe.
As flores escutavam, a boneca de sabugo escutava, a laranjeira miúda escutava, o pai escutava e pensava que a menina era mesmo esquisita. Com os cabelos longos despenteados pelo vento, as pernas e os braços magrelos sacudindo ao espaço, rodopiava esquisita no maior quintal do mundo. O quintal da infância dos seus seis anos.
Quando o vento se despedia, ela sorria cheia de esperança das novas histórias que viriam. O barulho da fé só ela escutava, pois, o cansaço da alma não visita as crianças.
A menina sempre soube que amor e fé são coisas lindamente esquisitas e moram, para sempre, no quintal que existe dentro da gente.

Sônia Gabriel

(Especialmente para Maria Salete Martins)

domingo, 20 de maio de 2018

Série "Verdade de outro jeito" - Contos 1




Meia página

Tinha meia família. Vivia de meio emprego. Foi meio amada. Cortava ao meio as refeições. 
Tinha meio pai. Uma mãe meio doente. Uma meia irmã com riso fácil, meio de ver-se de caído lábio sempre ressecado.
Uma vida inteira de inteira solidão.
Acostumada com a dor, espalhava-a pelos cantos como meio de alívio.
Suportado pouco mais de meio expediente, foi para casa. Deixou a porta meio aberta.
Bebeu meio copo de água. Deitou-se no meio da vazia cama imensa. Dormiu apenas meia-noite.
No dia seguinte, meio contrariada,  viu-se acordar.
Foi trabalhar...


Sônia Gabriel