quarta-feira, 13 de junho de 2018

Série "Verdade de outro jeito" - Contos 3



Separação

Era uma blusa velha, encardida nos punhos e colarinho. 
Podia vestir outras, mas, ano após ano, ela a levara para o trabalho.
A cor já desbotara, as costuras desgastaram-se, o relaxo era íntimo.
Naquela tarde chuvosa, ela foi e a deixou vestindo a cadeira.
Uma semana depois, ela ainda não voltou.
Resignada, a cadeira é a única a acolher.

Sônia Gabriel


quarta-feira, 30 de maio de 2018

Série "Verdade de outro jeito" - Contos 2




Uma menina esquisita

Onde quase tudo faltava, havia um quintal, amor e fé.
A menina era esquisita, pois falava sozinha, contava histórias que o vento trazia de longe.
As flores escutavam, a boneca de sabugo escutava, a laranjeira miúda escutava, o pai escutava e pensava que a menina era mesmo esquisita. Com os cabelos longos despenteados pelo vento, as pernas e os braços magrelos sacudindo ao espaço, rodopiava esquisita no maior quintal do mundo. O quintal da infância dos seus seis anos.
Quando o vento se despedia, ela sorria cheia de esperança das novas histórias que viriam. O barulho da fé só ela escutava, pois, o cansaço da alma não visita as crianças.
A menina sempre soube que amor e fé são coisas lindamente esquisitas e moram, para sempre, no quintal que existe dentro da gente.

Sônia Gabriel

(Especialmente para Maria Salete Martins)

domingo, 20 de maio de 2018

Série "Verdade de outro jeito" - Contos 1




Meia página

Tinha meia família. Vivia de meio emprego. Foi meio amada. Cortava ao meio as refeições. 
Tinha meio pai. Uma mãe meio doente. Uma meia irmã com riso fácil, meio de ver-se de caído lábio sempre ressecado.
Uma vida inteira de inteira solidão.
Acostumada com a dor, espalhava-a pelos cantos como meio de alívio.
Suportado pouco mais de meio expediente, foi para casa. Deixou a porta meio aberta.
Bebeu meio copo de água. Deitou-se no meio da vazia cama imensa. Dormiu apenas meia-noite.
No dia seguinte, meio contrariada,  viu-se acordar.
Foi trabalhar...


Sônia Gabriel






sábado, 24 de março de 2018

Um fraterno mundo amarelo



Saímos de Paris bem cedo, logo que entrei no carro e registramos no GPS o destino Auvers-sur -Oise, minhas mãos suavam e meu coração estava sem prumo.  Aquele encontro havia sido marcado anos antes, depois do saque a uma lixeira. Foi durante uma tarde enamorada. Enquanto tomávamos sorvete, vi um senhor depositar no lixo um saco de livros. Raras audácias são mais legítimas que aquelas realizadas pelos namorados. Eu, engenhosamente, pedi e ele sucumbiu. Invadiu a lixeira e o objeto do saque foi parar no porta-malas do Opala verde. Dentre os livros, uma biografia de Vincent Van Gogh, edição de Lisboa, início de século XX. 
Entramos na rodovia rumo a Van Gogh. Sabia o que encontraria lá depois de tantas leituras, visitas virtuais e viagens por suas telas, mas jamais poderia me preparar para o que sentiria naquela manhã fria e chuvosa de novembro. Logo na entrada de Oise, as pequenas casas do vilarejo já vão nos seduzindo. Uma avenida discreta faz vezes de máquina do tempo. As ruas vão se tornando mais estreitas, as pedras constantes, os telhados avisando que estão por lá há muito tempo e já viram tanto que uma vida apenas não me bastaria. Lamentei ser breve, naquele instante. Efêmera como as fumaças que fugiam das chaminés encantadas.
O outono me presenteou; talvez me esperasse, pois sabia o quanto é imenso meu apreço pelo ilustre e antigo morador que ali repousa. As folhas extremamente douradas caiam constantemente, o vento gelado não deu trégua e a chuva fininha, caseira, arrematou o toque final ao quadro que Van Gogh me permitiu viver. Por todos os lados para os quais meus olhos eram sequestrados, tudo estava amarelo. As árvores, as pedras antigas, as folhas forrando o chão, as escadas, as sacadas e os telhados. 
Enquanto assisto mais uma vez as imagens da paisagem eternizada na câmera, sou capaz de sentir o frio que me arrebatou naquele dia, as folhas invadem minha tela e as lágrimas que lá chorei, agora não são menos intensas. Que poderia Van Gogh diante de tanta força amarela? Render-se e nada mais. O fez profundamente. 
Sua morada; a estátua discreta, mas elegante, avisando que ali ele viveu e pintou, ou melhor, que ali ele pintou e, por isso, viveu um pouco mais (foram 70 quadros em 78 dias); as vielas; as escadas onduladas e a cada esquina uma imagem familiar para quem o lê, admira e se espanta por vida tão especial e enigmática daquele que o tempo decidiu ser um gênio.
 É indiscutível a genialidade de sua obra, mas tem algo em Van Gogh que me encanta tanto quanto seus quadros, a amizade entre o pintor e seu irmão Theo. Talvez seja difícil compreender esse fraterno amor os que não conseguem conviver com seus irmãos. Uma leitura superficial da biografia de ambos já espantaria os individualistas. Como Theo investiu, insistiu e cuidou tanto de um irmão imprevisível, tantas vezes irascível! Não cogitou não amá-lo. Mesmo diante de sua constante metamorfose emocional, o irmão o acolheu na família que constituía. Tentou entender seu ciúme, suas angústias, sua solidão e aceitou seu talento, possibilitando que ele se manifestasse. 
Quando Van Gogh abreviou sua vida, foi com Theo que passou suas derradeiras horas, consta que conversando. Depois que morreu, o pintor de força amarela fez falta ao irmão. Theo faleceu seis meses depois; ele amou tanto seu irmão mais frágil que sua esposa fez questão de enterrá-lo ao lado de Vincent.
Fiquei por ali, algum tempo, admirando as duas derradeiras moradas discretas, antigas, limpas. Depositei minha pequenina flor amarela e agradeci por ele ter nascido, resistido, sonhado, pintado. Agradeci sua existência humana, sua resistência artística, sua transcendência permanente em nossas paredes antes vazias. Agradeci pelo exemplo de seu irmão. A lição de Theo não é menor, seu viver nos convence da beleza daqueles que cuidam dos seus, sabendo árdua a missão, não desistem diante da facilidade de poderem escolher seus irmãos, conviver com os que privam de nossas expectativas e sonhos e não nos exigem. 
 Theo e Van Gogh foram mais que amigos, foram irmãos. Poucos irmãos amaram tanto quanto o irmão de Van Gogh. Poucas imagens me calaram tão profundo quanto o cenário do repouso de ambos.

Sônia Gabriel

 Ventos Antigos 
Editora Penalux


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Coluna Crônica Jornal de Caçapava: Pelos corredores da vida no novo ano...


(Jornal de Caçapava, 12 de janeiro de 2018.)


Colocar-se no lugar do outro é um dos exercícios mais difíceis que existem, pois nos amamos muito e pensar ou agir de forma a considerar mais o outro que a nós mesmos não é tarefa “para os fracos”, como dizem os mais jovens.
Recentemente, vivi uma experiência no mínimo desafiadora para os olhos de observadora que preciso ter. Passei por uma cirurgia e fiquei em repouso cuidadoso. Cansada de ficar em casa depois de semanas fui ao supermercado, num domingo de manhã, em tempo tranquilo e sem tanta gente. Precisei usar aquele carrinho que fica à disposição para portadores de necessidades especiais, inclusive as temporárias.
Precisei de um pequeno curso de cinco minutos para pilotar a máquina. Iniciei a aventura de circular pelos corredores apertados, e lutar por espaço com carrinhos abarrotados de compras e bolsas de mulheres voando pelos parcos ares, sem constatar a menor preocupação manifesta se alguém estava necessitando transitar com um pouco mais de dificuldade.
As pessoas passavam, empurravam carrinhos sem um passo atrás   para que eu pudesse continuar. Durante uma hora dentro do supermercado, foram quatro pessoas apenas que me permitiram passagem, ou que me olharam e sorriram gentilmente. Quatro pessoas em uma hora dentre centenas de pessoas andando para lá e para cá apressadas, de cara fechada, num domingo de manhã.
No começo, fiquei horrorizada com a indiferença, e até mesmo falta de educação, pois uma pessoa passou na minha frente forçando-me a brecar de forma brusca e outra empurrou o carrinho com tamanha agressividade que meu marido ficou estupefato. Resolvi insistir, mas com foco diferente. Deixei a compra para ele e minha filha e fiquei observando de outro ponto de vista as pessoas. Que experiência!
Um corre-corre quase num balé, pois as pessoas não agem de forma tão diferente afinal. Caras fechadas, sorrisos escassos me intrigaram. Como não sorrir num domingo de manhã? Como não sorrir podendo comprar alimentos nesse Brasil que ainda figura entre países com dantesca desigualdade social? Como não sorrir estando ao lado dos familiares? Como não sorrir, um tantinho que seja, se vivos estamos? Mas as pessoas têm o direito de não sorrir, eu que não consigo. Curioso demais pensar que tantas pessoas passam umas pelas outras sem saberem-se, talvez sem nunca mais se esbarrarem.
Foi impossível não tentar imaginar o que pensavam, de onde vinham, para quem voltariam, sobre o que as alimentariam... Foi impossível não refletir sobre as batalhas diárias de quem precisa de atenção, de recursos para que possam, também, ter o direito de ir e vir e realizar suas atividades como iguais. Temos tanto para nos educar ainda.
Então, risadas! Duas crianças pequenas brincavam correndo pelos corredores rindo. Passaram como foguetinhos na minha frente, riam muito, sorriram para mim, fazendo arte, e eu sorri também. Há salvação, enquanto crianças puderem ser crianças.
Para o novo ano, desejo que muitas crianças façam parte da nossa vida, que os corredores não sejam estreitos e que encontremos muito mais que quatro pessoas gentis e sorridentes em nossa vida esperançosa.


Sônia Gabriel

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