quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Crônica - Colares




Todo final de ano, eu faço uma revista em minha coleção de colares e distribuo. É um momento tenso, sim, muito tenso. Eu me obrigo a doar alguns, dez no mínimo. Se não fizer isso, terei que construir um quarto só para eles, algum dia, pois sempre ganho mais que distribuo. Eu desenvolvi um fascínio pelos colares. Guardo o primeiro que comprei. A partir daí, sempre que podia, adquiria mais um. Comecei pelos artesanais e pelos mais simples e com o passar dos anos, fui me encantando pelos mais elaborados.
Os amigos e parentes percebendo meu gosto pelo adorno passaram a me presentear e a coleção foi aumentando. Cheguei a ter 130 exemplares reunidos e, veio o estalo de que isso era um absurdo! Não tinha caixa e gaveteiro o suficiente para guardá-los, considerando que também gosto das pulseiras, anéis e brincos.
A questão do adorno sempre me fascinou, creio que por eu não saber ser vaidosa. Não sei  me maquiar, no cabelo faço o corte mais prático que existe: o bagunçado. As pessoas pensam que é estilo e eu sei que é falta de jeito. Os colares são, então, meus grandes aliados. Elegantes, práticos, despojados, delicados, exuberantes, alegres, sensuais... Não importa a roupa que coloco, adorno com um colar e pronto! Sinto-me arrumada!
No Museu do Louvre, eu vi alguns dos colares mais antigos do mundo e foi muito intrigante perceber que os gostos realmente não mudaram tanto. As peças em ouro, as pedras preciosas, o designer dos ourives de há milhares de anos ainda seduzem os olhares femininos. Consegui ver-me usando a maioria deles. O que enfeitava as rainhas e sacerdotisas hoje estão ao alcance de todas nós plebeias com metais menos nobres, mas de colorido e estilo igualmente belos. Viva as bijouterias!
Das barracas nas feiras de artesanato às barracas no comércio popular, das lojas temáticas às joalherias dos centros comerciais mais badalados, há colares para todos os bolsos e gostos. Eu pareço criança em loja de brinquedos diante da diversidade de colorido, forma, textura e imaginação. Sim, os colares aguçam nossa imaginação. Eles enviam recados, basta o exercício divertido de desvendar. Mas o recado principal é o cuidado de se gostar. Escolher um colar, aproximá-lo do pescoço, ver-se adornada por ele é saber-se bonita. E, saber-se bonita é um direito de todas nós. É isso, os meus colares me lembram que sou bonita para mim! Que sou bela com a minha idade, com as minhas características físicas, com as minhas cicatrizes, com a minha história.
Toda mulher é bela, está intrínseco em nossa condição feminina. A beleza se manifesta em cada uma de nós ao nosso modo de encarar a vida, as batalhas cotidianas, as alegrias, as tristezas, as vitórias, os desafios; nós nos encontramos nos nossos detalhes mais íntimos, no nosso empoderamento por meio de escolhas. Há mulheres que escolhem como lembretes da sua beleza: roupas, sapatos, maquiagens, bolsas, brincos, pulseiras, anéis, cortes de cabelos, modos de sentar, modos de sorrir, jeitos de olhar... Eu escolhi os colares! Sem eles, me sinto tela inacabada, texto sem desfecho, manhã sem brisa...

Sônia Gabriel



domingo, 9 de dezembro de 2018

Sarau Elas por Eles - Palavra de Mulher




Entrevista Mulheres na Cultura - Fundação Cultural Cassiano Ricardo








Entrevista Flit Taubaté com Conceição Molinaro




A partir de 40min



Entrevista Vanguarda Comunidade - Carlos Abranches - livro: Eu, professor







Entrevista Vanguarda Comunidade - Carlos Abranches




Assistir em http://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/vanguarda-comunidade/videos/t/edicoes/v/literatura-regional-bloco-1/3692907/


Entrevista - Tao da Letra para Giselle Lourenço







domingo, 2 de dezembro de 2018

Mostra Pedagógica Escola Barão de Jacareí - Mistérios do Vale - 2018







Jornal O Lince - julho/agosto 2018




Crônica

Cicatrizes

Eu tenho algumas cicatrizes no corpo. Outro dia, minha filha percebeu uma no meu rosto. Achei muito interessante ela não ter notado antes; ela tem nove anos e só recentemente se deu conta da mesma. Passou a mãozinha e perguntou como me machuquei. Também ocorreu com uma colega de trabalho. Numa manhã, de repente, me olhou mais atenta e disse: ‘”Nossa, mas você tem uma cicatriz no rosto! Nunca tinha notado.” Logo em seguida, disparou se eu não me incomodava, se não tinha como fazer uma pequena plástica e arrumar; eu achei muita graça e ri, enquanto ela me olhava sem entender.

Eu gosto das minhas cicatrizes. Calma, não é loucura. Creio que por serem, de certa forma, discretas, não me ocupam o pensamento. A do rosto é realmente um pouco maior, difícil de passar despercebida por muito tempo, mas não me incomoda. 

Tenho uma cicatriz perto do calcanhar, foi um corte feio num pedaço de arame, quando tentei passar por baixo de uma cerca em um pasto imenso onde e eu e meus irmãos estávamos brincando, quando crianças. Tenho algumas no joelho, pois fui uma criança muito arteira que corria, pulava, subia em árvores, caía de escadas, caixotes e gostava de “voar” na pequena rua, sem asfalto, onde morávamos. 

Tenho pequeninas cicatrizes nas mãos, que foram diminuindo conforme fui crescendo, por tentar usar a faca para descascar laranjas, fazer brinquedos e alisar varetas, dentre tantas outras travessuras. Tenho também as marcas do tempo, era magra, engordei, emagreci, engordei, emagreci; tive dois partos, amamentei... O tempo está passando e as rugas estão acentuando, meus cabelos digladiando com os fios brancos que insistem, e, ainda, tem a celulite companheira... Sim, definitivamente, eu não sou a mesma menina, cresci, amadureci, vivi e vivo intensamente o que a vida me presenteia e, muitas vezes, me impõe. 

Mas, voltando para a cicatriz que tenho no rosto, eu tinha menos de seis anos e cai na calçada quando minha mãe me levava para uma consulta médica, foi um corte horrível na região superior do olho direito. Chorei muito, senti muita dor e demorou para cicatrizar. Com o passar dos anos, ela foi diminuindo. Quando, aos dezenove anos, me apaixonei por ele, na segunda vez que saímos juntos e não foi quando me beijou pela primeira vez, ele passou a mão pelo meu rosto de moça enamorada, acariciou-o, depois olhou nos meus olhos, levou a mão até a cicatriz, desviou o olhar do meu e a observou perguntando como eu a tinha conseguido; contei, ele me olhou com ar sedutor de quem imaginou o quanto eu deveria ter sido traquina, depois olhou novamente dentro dos meus olhos e me beijou. Não foi nosso primeiro beijo, mas naquele momento senti que não seria o último. 

Então, a cicatriz continuará ali; e, também, o frio que sinto no estômago quando a memória daquele beijo se encontra com a imagem que vejo no espelho me fazendo sorrir e franzir a testa em cumplicidade. 


Sônia Gabriel