quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Uma super história de Ana Lygia


Para começar nosso dia repleto de boas histórias...


"Esse "causo" era muito contado na roça dos bisos, no alto da Ventania... e eu tinha PA-VOR."


"A HISTÓRIA DA PACUERA MINGUTE

Existe um lugar chamado Mata do Sodré, no alto da Serra da Mantiqueira, uma região até hoje pouco explorada entre São Paulo e Minas Gerais, nas divisas do município de Guaratinguetá, Piquete e São Francisco das Chagas, já em Minas Gerais. Até os dias de hoje a mata é tão fechada, a região tão íngreme que pela tevê nos chegam notícias de gente que se aventurou por lá ou pelas trilhas do Pico dos Marins e se perdeu passando dias tentando achar o caminho de volta.

Os caçadores que se aventuram por aquela região dizem que a mata é assombrada até hoje e que lá as pessoas perdem o rumo, por mais experientes mateiros que sejam. A história aconteceu por volta de 1930 e assombra os sonhos daqueles que ousam olhar para a direção daquela funesta mata:

Existiam três primos que gostavam muito de caçar nas brenhas da Mantiqueira, experientes que eram, jamais deixavam de preparar a matula de caça: espingardas cartucheiras, comida, bons cobertores para espantar o frio da serra, botas de cano alto para se proteger das cobras traiçoeiras, lamparina de querosene, cachaça... 

Os irmãos Neco e Zezé foram com o primo Juca para a aventura de homens briosos. Os cavalos e as mulas que levariam as bagagens foram deixados, como sempre, no primeiro rancho: uma espécie da pousada que todos os caçadores usavam e deixavam em ordem para os que viriam usá-la depois. O conforto que oferecia era um grande fogão de lenha e panelas de ferro, um bom telhado de sapé e firmes paredes de pau-a-pique, além de quatro tarimbas com esteiras de taboa. Mais nada.

A lenha estava logo ali na mata e a caça também, só que esta dependia da sorte e da pontaria do caçador. No entanto, quem se aventurava até aquelas paragens eram os mateiros experientes, para os quais a floresta tinha poucos segredos; então a caça do nhambu, da perdiz, do macuco, da juruti, do porco do mato, da paca, da capivara, do bugio e até da onça pintada era quase certa.

Naquela noite tinha chovido muito e durante a tarde os jovens caçadores haviam subido as primeiras léguas, chegando no pouso mais ou menos às sete da noite, ainda a tempo de acender os candeeiros de querosene, comer o virado de feijão que haviam trazido pronto e dormir. A melhor hora para caçar era no romper do dia, quando os bichos saíam de suas tocas e refúgios para beber água nos regatos e buscar comida.

Na manhã do dia seguinte deixaram o grosso da matula e os cavalos soltos nos arredores do rancho e partiram apenas com a patrona de couro às costas, uma espécie de mochila grande de couro cru onde levavam munição extra e comida pronta só para passarem o dia, uma vez que no final da tarde pretendiam retornar. As grandes espingardas e cartucheiras levavam a tiracolo. 

Mais para dentro da mata à beira de um riozinho havia outro rancho que servia de abrigo para os caçadores, mas era bem menor que esse outro, sem as esteiras, tarimbas e menos usado que o primeiro. 

Era mesmo para alguma emergência como uma trovoada repentina ou ataque de algum bicho selvagem. Os mateiros iam até lá para limpar a caça e usar a água do riozinho que corria à porta ou para fazer uma comida rápida na trempe.

Caminhando em silêncio pela trilha ouviram o pio de um nhambu e ainda acharam uma parte do terreno fuçada pelos porcos do mato. Em bando esses animais eram perigosos e mais de um caçador já havia sido ferido pelas dentadas dos bichos enfurecidos. Continuaram o caminho. Mas sem o menor indício ou sinal de alguma caça, quando deram por si estavam muito longe do ponto de partida: não dava mais tempo deles voltarem antes que a noite caísse e o temporal era iminente. Resolveram pernoitar no rancho menor e para lá se dirigiram sem caçar absolutamente nada. Não havia lenha seca no local, mas as fortes paredes, a porta de madeira rija e o teto ofereciam um abrigo seguro contra a tempestade que urrava lá fora, fazendo eco aos barulhos da noite e a escuridão que os abraçava, naquele idílio de temeridade, era o que tornava tudo mais assustador. 

Não seria isso que ia desanimar aqueles homens experimentados naquelas aventuras. Dividiram o resto do virado de feijão, o pão dormido de dois dias e um gole de aguardente para afastar o frio. No chão batido do ranchinho prepararam-se para passar a noite, tanto os cobertores como o conforto das esteiras tinham ficado lá no outro rancho e fazendo da patrona um travesseiro, cada um se ajeitou ao lado do outro no pequeno espaço e tentou dormir.

No outro dia a chuva os recebeu de manhã e o frio estava de lascar. Nada para se comer. Juca resolveu sair para ver se conseguia alguma caça e a única coisa que achou foi lenha meio molhada, mas que deu um fogo fumarento que espantou o frio. Nem uma juruti, nem um tatuzinho para aplacar a fome que já doía.

No começo da tarde, como a chuva não desse trégua, eles resolveram sair e tentar achar alguma caça: nenhuma! Os bichos todos pareciam estar invisíveis naqueles grotões.

Andaram durante três horas e nada, de repente ouviram o focinhar de um porco do mato. Os três engatilharam as espingardas, preparando-se para o encontro que iria matar a fome de dois dias. Juca como sempre ia à frente, Neco atrás e seu irmão Zezé fechava a fila. 

O bicho parecia estar numa moita de inhame depois de uma subida muito íngreme. Juca subiu na frente e quando o Neco quis seguir, se apoiou na espingarda para subir o morrinho, escorregou na terra barrenta, o dedo resvalou no gatilho e o tiro partiu, ecoando na mata. 

De susto os três caíram, mas Juca que ia à frente não se levantou. Os dois de trás pararam de rir quando uma grande mancha de sangue escorreu pela sua camisa encharcando o chão já tão molhado da chuva. Silêncio na mata: nem o alarido das aves depois do estrondo de um tiro se ouvia. No chão a mancha crescia diante da paralisia dos parceiros que, pasmos, não sabiam o que fazer. O tiro disparado de baixo para cima acertara em cheio o coração do caçador e a morte fora instantânea. 

Não havia o que fazer e Zezé que era o mais criança começou a chorar lamentando o amigo e a má sorte do seu irmão Neco, que sem querer matara o primo e, por conta disso, estava em estado de choque. 

O rancho estava longe, eles estavam sem força para carregar o amigo morto e ficaram sem saber que direção tomar na noite chuvosa. Então se enrolaram nas capas e passaram a noite ali mesmo sem comida, tiritando de frio e rezando para que nenhuma onça sentisse o cheiro de sangue e viesse até eles. O dia raiou e eles ainda permaneceram ali com muita fome e frio até que Zezé com seu facão fez uma padiola na qual puseram Juca. 

A bala da espingarda cartucheira ao sair fizera um rombo no peito do moço que jazia ali sem um pingo de sangue no corpo, parece que durante a noite, todo o sangue havia escorrido. 

Iniciaram a descida. Os dois caminhando lado a lado nas estreitas picadas, debaixo da chuva miúda que não parara um minuto. Eram três horas da tarde e eles ainda não atinavam com o caminho do rancho. Sem o sol para guiá-los naquela bruma da chuva e na mata fechada, haviam se confundido e penetrado ainda mais naquele verde breu. A noite se avizinhava e a fome era tanta que dava ânsias, embaralhava a vista e perturbava as ideias.

Às cinco horas da tarde Zezé então decidiu descer, não acompanhar as trilhas para ver no que dava, mas seu irmão Neco de tão fraco não quis acompanhá-lo, pediu que se ele achasse ajuda voltasse para buscá-lo e assim fizeram. Abraçaram-se, despedindo-se e Zezé iniciou a descida tentando manter uma linha reta sempre morro abaixo, abrindo caminho com a ajuda do facão. 

Sabia que tinha que caminhar a noite inteira para tentar buscar ajuda numa fazenda que ficava no pé da serra. Depois de vencida a etapa da mata mais fechada, ele sabia que podia achar o caminho, tentar ajudar seu irmão e dar um enterro digno ao primo.

Lá no alto da serra a fome foi mal conselheira e Neco começou a olhar seu primo esticado na padiola, morto há um dia. Logo ia começar a feder e os bichos seriam atraídos pelo cheiro de carniça. 

A fome era tanta que ele pensou que ninguém ia descobrir se ele comesse alguma parte das vísceras do primo. Não resistiu e enfiou a mão no peito do infeliz e com a ajuda da faca arrancou um enorme pedaço do que parecia ser o fígado do lado esquerdo do peito e comeu cru mesmo. Estava uma delícia, pensou, exatamente como o sabor dos miúdos do porco ou boi. 

Ainda tentou alcançar mais um pedaço, mas teria que alargar demais o buraco do peito e ele não se arriscou. Fortalecido pela macabra refeição, incomodado pela companhia do defunto resolveu descer a serra seguindo seu irmão que partira às três da tarde, cerca de seis horas antes daquela hora que começava apavorá-lo.

Ninguém nunca ficaria sabendo do que fizera nem mesmo seu irmão que jamais aprovaria aquilo, além do desprezo que sentiria por aquela atitude bárbara. Cobriu o corpo com alguns galhos e folhas e no escuro, debaixo de chuva, ele começou a descida. Passava um pouquinho da meia noite quando ele ouviu um uivo de dor que lhe gelou os ossos:

- “Aiii! Aiii! Eu quero minha pacuera mingute! Eu quero minha pacuera mingute!”

Ele sabia que em catalão, povo de origem do Juca, mingute quer dizer pequeno, menor, então o grito se referia ao pedaço da pacuera, do fígado que havia devorado num momento de desespero.

O urro apavorante chegou até ele vindo do lugar onde o defunto havia sido deixado e aquela sinistra ladainha clamava exigindo-lhe a restituição do pedaço de corpo devorado.

Às quatro horas de dianteira que ele tinha sobre o falecido pareciam ir diminuindo pois cada grito parecia estar mais perto e seu pavor chegou ao máximo. Neco estava perdido e o defunto redivivo e cheio de ódio, desejoso por arrancar as entranhas do traidor.

Ao dar conta do sacrilégio cometido, Juca passou a sentir-se desesperado e arrependido e começou a correr, sem atinar com a direção tomada, rezando e pedindo perdão a Deus e a todos os santos do céu. 

Parecia ter corrido durante horas, de repente ele viu o ranchinho com o riacho à porta. Ele correu para dentro batendo a porta e passando a grande tábua que servia de trava para fechar a passagem. Ajoelhou-se do lado de dentro e gritou por nossa senhora e pela proteção de seu anjo da guarda, quando escutou um barulho de alguma coisa batendo com violência do lado de fora da porta.

Quando ele colocara a tranca na porta ela formara uma cruz com a tábua vertical e foi isso que o salvou do morto-vivo, que ficou grudado na porta, do lado de fora. No dia seguinte, Zezé volta com ajuda e traz um padre que viera para encomendar o corpo no local da tragédia (justamente para que o lugar não ficasse mal assombrado). 

Todos do povoado acabaram sabendo do acontecido e a família do morto nunca perdoou o primo que acabou ficando louco e errando pelos caminhos. 

Até hoje, em noites de lua cheia, ouve-se um longo gemido de dor vindo dos altos da Matas do Sodré, um trecho onde passarinho não canta, nenhum bicho entra e o silêncio é total. É a “Mata do Engolido”, local ermo onde se alguém entrar não sai, se tentar sair se perde e perdido enlouquece, procurando uma trilha que não existe visto que há um espírito atormentado que geme e chora, pedindo sem cessar: - “Eu quero minha pacuera mingute! Eu quero minha pacuera mingute...”"

Ana Lygia



2 comentários:

Dóris disse...

Adorei Sonia !!!!!

Lu Saharov disse...

Li quase num fôlego só, aflita para saber o final desta história tão bem contada. Parabéns, Ana Lygia! Seu conto me fez voltar à meninice quando adorávamos ouvir histórias de terror, encolhidos ao lado de minha avó, que narrava contos macabros de outas plagas distantes. Grande abraço!