domingo, 24 de agosto de 2008

Nas Trilhas do Zé Mira...


Faleceu Zé Mira, partiu um sonhador com os pés no chão.

Curiosamente, há muito tempo tenho vontade de ler o livro Nas trilhas do Zé Mira, de Lídia Bernardes. Semana passada, Flávia Diamante me avisa que está no Circular Clandestino do Museu do Folclore, um exemplar. Fiquei desesperada com a falta de tempo para ir buscá-lo. Felizmente era para ser meu.

Não tive a honra de conversar com Zé Mira pessoalmente. Por uma série de circunstâncias, que não compreendo, meu aprendizado não passou por sua presença física, mas li muito, ouvi muito sobre Zé Mira.

Está aqui, ao meu lado, o livro; lerei com um "quê falhei em não apressar-me". Mas com certeza terei horas alegres de leitura e principalmente, alimento para minha certeza, que se constrói, de que a cultura não é para poucos, e não pode ser cuidada por poucos, o saber está para além dos diplomas, sabatinas e pretensões de explicar os outros, o conhecimento passa principalmente por tentarmos aprender passando pelos outros e seus deslumbramentos e desmembramentos.

Zé Mira está o que sempre foi: ENCANTADO.

Paz e bem

Sônia Gabriel

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Crônica: Gente...


Gente...

Foto minha: Teto Sala das Promessas, Basílica de Nossa Senhora Aparecida - SP, 2008.


Certo artista escreveu que anda cansado, me pareceu necessitar de um pouco de ostracismo.
Gente demais sufoca. É muita energia, nem sempre boa, muita carga emotiva e de quando em quando é impossível desligar-se e conviver na justa medida. Nestes momentos, a solidão pode ser singular companheira.
Sempre estive cercada de gente, escolhi trabalhar e criar envolvida por tal matéria-prima. Assim sendo, tenho que estar preparada para tudo.
Nem sempre consigo explicar-lhes ou me explicar atitudes que transcendem o bom caráter.
E a gente fica pensando e até externa baixinho: “Como é que pode?”
Tenho visto de tudo: o veneno que escorre pelos olhos esguios de quem não suporta a paz e a felicidade que invadem os outros, o cochichar característico de quem quer ferir seu semelhante porque se incomoda sabe-se lá com o quê. E só quem se dispõe a estas cenas pode justificar a escolha do papel.

Tenho cá minhas hipóteses: o individualismo da sociedade moderna. Todo mundo trabalha muito, a necessidade de consumismo, de TER cada vez mais, tem deixado pouco tempo para SER um pouco mais. Falta tempo com a família, faltam afeto e cuidados. Falta a abundância da vida. E como ainda não é possível comprar tudo, tem muita gente com um vazio que dinheiro, carreira e status não preenchem.

Quando a gente escreve, desenvolve um bendito de um ouvido e de uma visão que chegam a nos ferir, já que nem tudo se permite filtrar e digerir.
Haja tempo para fofocas, maledicências, arrogâncias, intolerâncias, abusos de poder (que acham que têm) e tantos outros males que nos assolam diariamente.

Sábia era dona Firmina: “É tudo casca, bem. Gente sozinha, falta sentimento.”
Deve ser.
Não tenho dúvidas: a vida é um parto.

A tentação de nos isolarmos é sedutora, mas como nos humanizarmos sem a presença de outrem?
As pessoas são imprescindíveis, não nos humanizamos sem elas. São e estão para nosso bem e nosso mal, fazem parte de nosso crescimento.
A cada dia, vejo incontáveis motivos para desistir da convivência e quando estou quase desanimando do ser humano e por tabela de mim (a não ser que achemos que estamos acima da raça), vem um fato, uma verdade, uma pessoa e às vezes uma pessoinha e renasce aquele enorme e incondicional amor que temos por nós mesmos e pelos outros também.
Há gente de tudo quanto é forma, jeito, cheiro, aparência; não há como não conviver, mas é preciso muita prudência para não adoecer a alma.
Cada qual constrói o escudo que melhor se ajuda às suas necessidades: uns gritam, outros ferem, há ainda aqueles que transferem suas dores para o sagrado ar de todos. Também tenho meu escudo, escolhi o sorriso. Não é pior e nem melhor que as escolhas de meus semelhantes.
Se fosse me prender nas feridas teria desistido de sorrir há anos, resolvi que as feridas é que não me impediriam, não permiti e não permito.
Eu só tenho esta vida; tenho obrigação de me fazer feliz.
Gente! Bom, nós também somos... E por mais que abale nossa vaidade (e sempre dói) somos gente igual a toda gente e só...
Cada qual com seus mistérios, suas dores, suas vitórias e alegrias, mas no fim somos gente, de alma gritante, coração pulsante, mas gente sempre...

Sônia Gabriel

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Mais sobre Orgulho Caipira...


Caros amigos, conheçam um pouco mais sobre o grupo Orgulho Caipira (link abaixo e ao lado). No blog vocês encontram a origem de cada uma das danças abaixo. É muito interessante.

O Grupo Orgulho Caipira de Lagoinha surgiu por iniciativa de Amarildo Pereira Marcos, em 2001, quando foram apresentadas várias danças, dentre elas a Dança do Caranguejo, Folia de Reis, Folia do Divino, Dança do Sabão, etc.A partir daí, alguns amigos, amantes da cultura, se reuniram e resolveram montar um Grupo com o objetivo maior de resgatar a cultura da terra.O Grupo, formado basicamente por 20 componentes, apresenta, além das Danças e Folias acima citadas, a Roda de Jongo, Cantigas de Mutirão (conhecidas em nossa cidade por Brão) e também o Calango .O Grupo se apresenta em quase todas as festas populares que acontecem na cidade de Lagoinha e região.


APRESENTAÇÕES do GRUPO ORGULHO CAIPIRA

DANÇA DO SABÃO
DANÇA DO CARANGUEJO
CATIRA
DANÇA DE SÃO GONÇALO
DANÇA DA PINGA
DANÇA DO JONGO CABOCLO
CANTIGA DO MUTIRÃO OU BRÃO
FOLIA DE REIS
FOLIA DO DIVINO
MISSA CAIPIRA
MÚSICA RAIZ
MÚSICA PARA ARRASTA PÉ
SHOW PARA TODAS AS IDADES.

FONE 97 06 48 30 AMARILDO COORDENADOR

OUTRAS INFORMAÇÕES WWW.ORGULHOCAIPIRA.BLOGSPOT.COM/

domingo, 20 de julho de 2008

Matéria no Jornal Valeparaibano 13/07/2008


(Matéria publicada no Vale Educação, Jornal Valeparaibano, em 13/07/2008)

Vêm aí Filosofia e Sociologia

Matérias extintas há 37 anos voltarão ao currículo do ensino médio em 2009



Em busca de uma educação mais crítica, que proponha uma visão mais humanista, disciplinas isentas da obrigatoriedade há 37 anos voltam ao cenário escolar.A lei que torna obrigatória a volta das disciplinas Sociologia e Filosofia à grade curricular do ensino médio foi sancionada no início do mês passado pelo presidente da República em exercício à época, o vice-presidente José de Alencar. A lei foi aprovada pelo Congresso Nacional e entra em vigor tão logo seja publicada no Diário Oficial da União.

As duas disciplinas haviam sido excluídas do currículo escolar por decisão do regime militar, que governou o país no período de 1964 a 1985, que considerava seus conteúdos supostamente subversivos. Naquela ocasião, o regime adotou a disciplina de Educação Moral e Cívica, já extinta.A inserção das matérias nas escolas ficará a cargo das Secretarias de Educação, o que deve acontecer só a partir do ano que vem.


ENTENDIMENTO - Para a professora de sociologia e pesquisadora Sônia Gabriel, de São José, a inclusão das disciplinas na grade curricular representa um ganho para a educação. "A filosofia possibilita ao aluno a introdução de conceitos da lógica, ética, estética, política e metafísica", explica Sônia. "São conhecimentos que favorecem um maior conhecimento de si mesmo, do outro e do meio", completa.A sociologia, de acordo com ela, permite ao aluno conhecer a sociedade e todos os elementos que a compõem. "Nesta disciplina, professores e alunos vão entender as relações sociais partindo da economia, antropologia, política entre outros conhecimentos que permeiam nossas vidas, nosso trabalho, e não nos damos conta", explica.Para Sônia, existe ainda a necessidade de um entendimento mais aprofundado dos mecanismos que regem a sociedade. "Esses mecanismos precisam ser mais explorados, refletidos e compreendidos, não apenas apontados", alerta.

As disciplinas que mais se dedicam a essas questões, segundo ela, são História, Geografia, Sociologia e Filosofia. "Todas elas têm a sua importância e cada uma a seu modo contribui para o fortalecimento da cidadania e a construção de uma sociedade mais justa", conclui.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Encontro na UNIVAP - 29/05/2008


O encontro com os alunos do 1° ano de História, Universidade do Vale do Paraíba, dia 29/05, foi muito proveitoso. Falei sobre minhas pesquisas que resultaram no livro Mistérios do Vale e conversamos também sobre Educação. Os alunos apresentaram trabalhos sobre a História e Cultura no Vale do Paraíba sob a orientação da professora Valéria Zanetti.
A turma se mostrou muito antenada e isto nos anima muito. A relação de profissionais com universitários deve sempre ser estimulada, mais do que troca de conhecimentos, acredito na troca de energias, experiências e motivação para ambos os lados.





As fotos foram enviadas pela Nara e o convite partiu da Dicéia, todas, comigo, na foto acima. Obrigada, meninas!
 Paz e bem!
Sônia Gabriel

terça-feira, 3 de junho de 2008

Um Vale de Livros: Moacyr Pinto


Continuando com nosso 'Um Vale de Livros', conheçam a obra de...


Moacyr Pinto da Silva é educador e sociólogo, tem 58 anos, mestrado em Sociologia do desenvolvimento. Com um currículo sólido e reconhecido, o autor do livro "Conto de Vista: histórias no Brasil que elegeu Lula", é um estudioso que viajou muito pelo Brasil e viveu no Sertão da Bahia, Fortaleza, ABC, Sorocaba e atualmente mora em São José dos Campos. 

O livro pode ser encontrado nas livrarias Nobel de Jacareí, São José e Ubatuba; na livraria da Unip; em várias bancas de jornais de São José dos Campos, entre elas a do Shopping Vale Sul e diretamente com o autor:

Tel: 12- 3913-5466.
Cel: 9731-1708.

Valor: R$25,00.

domingo, 25 de maio de 2008

Convite: Semana de Meio Ambiente de Jacareí



Meus amigos, segue o convite da Semana do Meio Ambiente de Jacareí. Na oportunidade, falarei sobre esses quase sete anos de viagens e pesquisas pelo Vale do Paraíba. O convite partiu de Teresa Ribas que oportuniza uma visão mais completa sobre o Meio Ambiente do Vale do Paraíba, focando também na questão cultural. 
Aproveitaremos o momento para uma breve reflexão sobre a dificuldade de interiorizar conceitos como preservação, por exemplo, e o quanto isto está intimamente ligado à cultura.

Conto com vocês.
Abraços
Sônia Gabriel

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Crônica Nosso Jornal: A Menina dos olhos amarelos



A Menina dos olhos amarelos

(Nosso Jornal, Outubro de 2003)



Aquela manhã foi a mais especial de todas as manhãs da escola. Quando dona Marlene anunciou que uma nova aluna começaria em nossa turma, ninguém poderia imaginar como ela era diferente. Todos na sala ficaram de olhos arregalados e queixos caídos, quase não dava para acreditar, quase não dava para fechar a boca. Ela era como todos os outros: o mesmo tamanho, a mesma idade. Sua pele era morena e os cabelos bem pretos, mas os olhos, bem ... Eles eram amarelos! Como poderia ser? Olhos amarelos? Você já viu alguém com os olhos amarelos?

Pois é. Naquela turma da terceira série, naquela escola municipal, em Jacareí, em 1979, eu conheci uma menina de olhos amarelos. Ela se chamava Margarida, vinha de outra cidade com seu pai e sua mãe; estavam de mudança para um novo emprego, uma nova vida, como ela dizia.
Durante a aula, foi difícil algum aluno prestar atenção em qualquer coisa que a professora dissesse; até mesmo ela, a professora, parecia estar intrigada.
Enfim, veio o recreio. Eu pensava como deveria ser difícil ter os olhos amarelos! Todo mundo olhando pra gente o tempo todo, ser tão diferente. Pensei em fazer amizade para que ela não se sentisse tão diferente. Não deu, todos ficaram em volta perguntando, querendo olhar de perto, só não tocavam por medo – eu acho.
Foi então que, chegando bem pertinho, percebi que ela não estava nem um pouco assustada, parecia até mesmo muito à vontade, sorria e tentava responder todas as perguntas, então perguntei:
_ É muito horrível ter olhos amarelos? Ela, com um enorme e condescendente sorriso, respondeu:
_ Não! Como poderia ser diferente? Eu já fui uma linda margarida, e dessa vez nasci menina, meus olhos são a lembrança de uma vida feliz de flor. Minha mãe já me contou tudo.



Sônia Gabriel


sábado, 10 de maio de 2008

Um Vale de Livros: Sílvio Ferreira Leite



Continuamos com nossa série sobre autores e livros do e sobre o Vale do Paraíba... Nos lembramos de Sílvio Ferreira Leite nos presenteando todas as semanas com suas crônicas no Jornal Valeparaibano. Que tal saber um pouco mais sobre ele e seu trabalho?
Aproveitem...


Sílvio Ferreira Leite é autor de livros e peças teatrais com mais de 30 títulos publicados entre trabalhos de autoria e adaptações. Redator dos livros de arte “Visões da natureza” e “Fontes e chafarizes do Brasil”, patrocinados pela Mercedes-Benz do Brasil.

Autor do musical “Guaiú, a ópera das formigas”, em parceria com o músico Marcos Arthur, primeira e única ópera infanto-juvenil brasileira, que estreou em 1990 no Teatro Caetano de Campos, em São Paulo e ganhou nove prêmios da Associação Paulista dos Críticos de Arte - APCA em várias categorias, com destaque de Melhor Espetáculo do Ano pela Fundação Nacional de Artes Cênicas - Fundacen.
Autor do musical infanto-juvenil “Cabrum!”, com músicas de Andréa Drigo, encenado em 1994 pela Cia. Teatro da Cidade.
Autor de quatro livros infantis da Série Ecologia lançados pela Editora Abril em 1991: “O jacaré sumiu”, “A invasão dos bichos”, “Um grito na mata” e “Na trilha da tartaruga”.
Autor de “Os duendes da floresta negra”, da coleção Time Runners, da Editora Abril, publicado em 1995.
Autor de “Na terra dos homens de duas caras”, da Editora FTD, lançado em 1996.
Fez adaptações de várias coleções de livros brinquedos da Editora Abril entre 1997 e 2001.
Autor de “Expedição ao mundo dos sonhos”, editado pelo autor em 2000.
Autor de “Revolução Silenciosa”, de 2007, uma coletânea de crônicas publicadas no jornal Valeparaibano, de São José dos Campos - SP.
Autor do romance “O Dono do Destino”, lançado pela Editora Centauro em 2007.
O livro “Revolução silenciosa” é uma seleção de crônicas publicadas semanalmente pelo autor, entre novembro de 2004 e agosto de 2006, na coluna “Panorama” do jornal “Valeparaibano”, de São José dos Campos – SP. São textos voltados à reflexão, aos questionamentos, e falam de sonhos, sentimentos, emoções, propósitos e outros aspectos da natureza humana. A 1ª edição está quase esgotada. Os exemplares restantes podem ser adquiridos diretamente com o autor pelo e-mail silvioferreiraleite@yahoo.com.br.



“O dono do destino”, primeiro romance do autor, é uma suave reflexão sobre os labirintos da natureza humana. São diálogos reveladores de cinco personagens que se encontram, conduzidos por um fotógrafo, e que acabam trocando confidências sobre seu passado, suas intimidades e seu modo de pensar.
Esses personagens que povoam “O dono do destino” transmitem tanta familiaridade, que parecem pertencer ao dia-a-dia comum. Se fossem reais, provavelmente se esconderiam por trás da hipocrisia. Na ficção, no entanto, mostram-se por inteiro, sem nenhum disfarce. O resultado é simultaneamente simples e surpreendente.


“O Dono do Destino” pode ser adquirido nas livrarias, nos distribuidores que atuam pela internet e pelo site www.centauroeditora.com.br.



quarta-feira, 23 de abril de 2008

Coluna Crônicas Valeparaibano: As Dores de Luciana




As Dores de Luciana

(Em 28/01/2004, jornal Valeparaibano)


Luciana porquê a avó materna se chamava Ana e a paterna Lúcia. Luciana tem quarenta e oito anos e uma forte cólica de rins. Sente tanta dor que não consegue nem ao menos sorrir. Tem no rosto uma verruga que chega a tremer tamanha deve ser sua dor. Outro dia, sentado no ponto de ônibus, numa espera que nunca acabava antes de trinta minutos, Luciana chegou, cumprimentou a todos e sentou-se, conversa vai, conversa vem começou a contar sua história para uma terceira personagem. Eu escutei, apenas escutei:
_ Ah! Boba, minha irmã sempre foi mais bonita que eu. Também era muito mais velha, uns oito anos para arredondar, já era mulher feita, tinha as formas que eu ainda ia ter. Os moços que apareciam eram sempre para ela. Ninguém me via, ela se exibia, até entre os irmãos ela era preferida. Às vezes nem me lembro deles, mas dela nunca me esqueço.
Tudo eu engolia, mas um dia eu vomitei. Maurício chegou, bonito, o mais bonito de todos: alto, olhos verdes, muito verdes, eu só conseguia olhar nos olhos, me encantei pelos olhos, nunca tinha visto coisa igual.
Minha irmã não ia querer, sempre desprezava, se dizia moça demais para casar, que ainda iria fazer muitas coisas na vida...
Ela o quis, com certeza só para me magoar, ela o quis. Assisti durante meses o que me pareceram anos: o namoro, o noivado, o casamento. Ela casou-se no dia do seu aniversário, fazia vinte e um anos. Eu a odiei. Odiei ser para todos uma criança.
Ela mudou-se para longe, mas eu nunca a esqueci. Imaginava, sem nenhum pudor, estar em seu lugar. Enquanto eu crescia, todos se iam, restaram minha mãe e eu. Minha irmã teve dez anos de felicidade enquanto para mim eram de dor. Numa tarde, mamãe chegou com a carta e avisou que Maurício ia chegar com a família, minha irmã estava doente e precisava de cuidados.
Vieram, nem me lembro do rosto dela, mas ele continuava belo. Os filhos, três meninos, eram-lhe cópias fiéis. Cedi meu quarto e mudei meu semblante; após alguns dias, comecei a ter uma cólica de rins que me acompanha até hoje, a dor era tanta que não conseguia nem sorrir. Ainda não consigo.
Maurício logo começou a trabalhar novamente e eu a cuidar dela e das crianças e assim ficou durante oito meses, aos poucos meu coração se acostumava a vê-los sempre por ali, em torno de mim.
Cada beijo, cada despedida, cada gemido me sufocava na noite, me apunhalando pelas costas, numa dor que percorria cada centímetro do corpo que agora era de uma mulher.
Certa manhã, levantei, dei café a todos e fui levar o dela. O quarto estava silencioso, ela dormia tão profundamente que não quis acordar. As horas foram passando e ela não acordava, voltei ao quarto e percebi que estava morta.
Não sei o que senti naquele momento, tanto passou pela minha cabeça que não pude perceber a amplitude do instante. Passado todo o funeral, Maurício e sua família ficaram morando conosco, era o mais apropriado. Nos primeiros meses tudo transcorria normalmente, ele trabalhava, eu e mamãe cuidávamos da casa e das crianças.
Quando lembrava-me de minha irmã, só pensava em seu marido, era como se ela tivesse sido apenas um adiamento da minha felicidade. Apossei-me do seu lugar, fazia o que à ela havia competido. Educava e alimentava seus filhos, lavava e passava para seu marido, e finalmente deite-me em sua cama.
Não me culpava, estava recuperando dez anos de escuridão, foram quatro anos de estranha felicidade, apesar de feliz eu não sorria e a dor não passava.
Uma fatalidade me interrompeu. Maurício morreu num acidente de carro. Como pagamento por tanta espera, tive uma carrasca herança: uma mulher idosa e três sobrinhos para terminar de criar, ainda uma profunda saudade do quê não vivi e do quê não vivi o suficiente. Passou, tudo passa.
_ Credo, Menina, só essa dor nos rins é que não passa.

O ônibus dela chegou. A mulher se levantou e foi embora. Eu perdi dois ônibus e tive que esperar muito mais, conclusão.
Não é a cólica de rins que impede Luciana de sorrir. É a falta de sorriso que lhe dá a cólica de rins. Quanto a mim, não são os ônibus que demoram demais, eu que chego mais cedo para escutar a matéria-prima.


Sônia Gabriel 



Coluna Crônicas Valeparaibano: A Despedida



A Despedida

(Em 20/08/2003, Jornal Valeparaibano)

A água do chuveiro caía quente e o frio que entrava pela janela entreaberta era incômodo, aos poucos ele se confundia com toda a fumaça que a água, tão quente, produzia. Mesmo com pressa, por um momento eu parei, relaxei o corpo e a cabeça começou a pensar.
Tudo em minha volta parecia meio morto, o chão de cimento grosso e as paredes com um reboque escuro pareciam no meio de tanta fumaça, um túmulo. Veio-me uma sensação de medo, de prisão. Um nó que apareceu na garganta logo foi interrompido pelas lágrimas e essas pareciam empurrar toda aquela sensação para fora de mim.
Fui lentamente abaixando meu corpo, encostei num canto da parede, sob o chuveiro. A solidão naquele instante foi tão imensa que agradeci ao chuveiro aquele barulho infernal que ele costumava produzir todas as manhãs, tardes... Tudo dentro da minha cabeça se confundiu, as lembranças se espalharam para todos os lados.
Em minha mente, chamei durante várias vezes meu 'anjo da guarda', nem mesmo que hoje ele não fosse anjo, mesmo que hoje eu encontrasse aquela expressão triste e rebelde, não importava, eu precisava vê-lo, ver qualquer pessoa, precisava de um colo, mas ele não veio.
Fechei meus olhos, coloquei a cabeça entre as mãos e chorei novamente. Chorei todo meu medo. Meu corpo, que começou a não suportar o frio, pedia-me que levantasse, mesmo assustada e carente, me esforcei, levantei-me, desliguei o chuveiro, procurei por entre a fumaça do banheiro, por uma toalha, peguei-a, enxuguei-me e toquei na porta.
Havia dentro de mim uma pequena revolta.  Por que daquela dor? Por que num momento em que me sentia tão frágil? E por que meu personagem que era o mais forte, o mais frágil, não me amparou? Só ele poderia compreender um momento de tanta dualidade...tanta mágoa que me empurrou a tocar novamente a maçaneta, foi tanta força que a porta se abriu.
O restante da casa que não era diferente do banheiro estava um pouco mais claro, minhas pernas um tanto descompassadas levaram-me ao quarto, ao me aproximar do cômodo lá estava ele, meu personagem mais querido, estava deitado num canto da minha cama, com as costas apoiadas na parede feia e inacabada, ao me ver entrar sentou-se com o violão no colo, dirigiu-se até a mim e disse que era preciso, havia lhe doído muito mas eu precisava aprender a levantar-me só, precisava aprender a abrir as portas da minha prisão.
Finalmente abraçou-me, juntou suas coisas e o vi na mesma estrada de sempre, triste e solitária com a jaqueta nas costas e o violão na mão. Tudo empoeirado e triste.



Sonia Gabriel é pesquisadora e professora de História e Sociologia.



quarta-feira, 9 de abril de 2008

Um Vale de Livros: Maurício Cintrão




Maurício Cintrão. Bom humor é sua marca registrada! Ele escreveu O gordinho e a menina de rosa, o livro reúne várias crônicas e traz na capa a notificação: textos curtos para viajar. E é uma viagem mesmo! Para adquirir o livro, entre em contato com o autor pelo m_cintrao@yahoo.com.br.

Não deixem de ler os títulos: Coisos e Coiseiros, Amigo de bronze, Sons da Noite...