sábado, 25 de outubro de 2008

Um Vale de Livros: Conceição Molinaro

Continuando com nosso Um Vale de Livros, vamos anotar os livros da Conceição Molinaro.

Tive o prazer de conhecer a Conceição Molinaro, há alguns anos, num evento em Lorena e ficamos apaixonados (eu e o André) pelos livros dela. Primeiro, pela riqueza de sua pesquisa e claro, pela beleza de sua escrita. Abaixo algumas capas para vocês ficarem com aquela "agüinha" na boca e loucos para serem crianças novamente. Conceição Molinaro escreve sobre a turma do Sítio do Picapau Amarelo. A danadinha tem o privilégio de morar próximo ao Sítio do Visconde, lá mesmo! Em Taubaté, imaginem...
Leiam, dividam com adultos e crianças as aventuras que ela tão bem cria. Seus livros são um presente para cada um de nós.
E a pessoa da Conceição Molinaro é de uma beleza que vale a pena desfrutar.
Saibam mais sobre nossa escritora no:

www.concemolinaro.com

Há um link ao lado também, seus livros são encontrados em todas as livrarias, são publicados pela Editora Globo. Contato com a autora: concemolinaro@netscap.net.
Divirtam-se...




quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Crônica: A menina mais bonita do mundo

(Tarde de chuva. Foto minha, Conceição dos Ouros -MG, em 2008)

“A Menina mais bonita do mundo”

Quando tive a notícia que a primeira de meus sobrinhos (ao menos filhos de meus irmãos) tinha nascido, lhe desejei como presente, que fosse forte e decidida, pois este mundo ainda deve muito às mulheres.
E como nos contos de fadas quando elas presenteiam, elas o fazem mesmo.

Thais, “a Menina mais bonita do mundo”, é assim mesmo: forte e decidida, mesmo aos cinco anos de idade, e como é interessante observá-la.

Como qualquer ser humano que ama os seus, sei de seus defeitos, mas suas qualidades também gritam.

Thais reinou absoluta ao lado do primo até há algum tempo, todas as atenções eram apenas para os dois, daí começaram a chegar os primos menores, literalmente; a família foi crescendo, mas seu espaço tomou rumo inverso. Ela tem lutado para se manter e o faz com muita determinação e charme.Inventa brincadeiras, propõe diferentes estratégias de diversão, mas os meninos não têm se interessado.
Pensa que ela se joga num canto e lamenta? Que nada! Chama quem estiver por perto, insiste, junta os lábios naquele famoso bico vermelho contrastando com a pele alvíssima, de bochechas rosadas, cabelos longos (de tanto ela comer couve) e olhos verdes ou azuis, nunca dá para saber com exatidão. Eu disse, ela é “a Menina mais bonita do mundo”.

Em suas investidas para arrumar alguém para brincar na sua família paterna, tenho exercitado minhas histórias. Já lhe emprestei colar com cristal mágico, ela é muito vaidosa, como toda bailarina, minha pequena Ana Botafogo. Já lhe revelei que a pequena mata próxima de minha casa é repleta de cucas, caiporas, sacis, príncipes e princesas, cavaleiros, fadas e ogros.Seus olhos brilham, ela escuta e exige silêncio dos meninos.

Mas da última vez foi muito interessante. Semana passada, estávamos numa reunião em minha casa, ela visivelmente contrariada com os meninos. Não a deixavam brincar, os tolinhos. Não tinha brinquedo para ela, eu tinha que dar um jeito, ela determinou. Sentou-se no sofá próximo ao aparador e cruzou os braços. Sentei ao lado, fiz cara de quem estava inventando coisa, estiquei o braço até o aparador e peguei uma chave antiga e um candeeiro, ambos presentes de uma fada. Fiz gesto de silêncio, afinal ali se revelaria um segredo. Aproximei-me dela e falei baixinho: “Pegue a chave assim, com mãos firmes, veja a fechadura no ar, olhe bem, ela está aqui na nossa frente, abra a fechadura, assopre o candeeiro uma única vez, forte. Pronto, a porta se abriu, está vendo? Estão todos ai: fadas, gnomos,animais falantes, reis e rainhas...”.

Seus olhos se arregalaram, ela tomou a chave de minhas mãos e respondeu baixinho: “Estou vendo”. Nisso vieram os meninos correndo, se jogando pelo tapete, se embolando em combates e ela se distraiu e se aborreceu, colocou a chave e o candeeiro no aparador e sentou com bico e tudo no sofá.

Perguntei se queria que eu convidasse a filha da vizinha para brincar com ela, afinal têm quase a mesma idade, ela aceitou, a amiguinha veio trazendo um baú de bonecas e pensei que não dava para concorrer com a Barbie para sempre.

Quando já estava saindo da sala e levando os meninos para outro cômodo para que elas tivessem espaço para brincar, a vi levantar-se ligeira e pegar a chave e o candeeiro e passar para a nova visitante o ritual que eu acabava de lhe ensinar.

Ainda estou salva...

Sônia Gabriel

Crônica: Sonhos em Papel.

(Três Neguinhas, fotos: André P. Gabriel, próximo São Bento do Sapucai -2008)


Sonhos em Papel


Tive um sonho estranho, categoria pesadelo mesmo.
Eu explodia depois de escrever algumas cartas. Foi tão real que senti nitidamente o corpo inchar, a explosão aliviar a alma e o sangue que depois jorrou.
Eu, apesar de protagonista, podia ver tudo, inclusive as cartas escritas antes do fatídico final. Muito constrangedor assistir ao próprio "Fiat Lux".


Quando acordei, extremamente assustada, só conseguia pensar nas cartas. Nem tentei entender o motivo do pesadelo. Dormir depois do almoço, sem o hábito de fazê-lo, pode ser um deles; preocupações com o que não depende de mim, também.
Mas o pesadelo em si não é a questão. Estou intrigada com as cartas. O que será que escrevi ali? Eram tantas as páginas espalhadas, a tinta intensamente azul a ponto de eu recordar. A caligrafia forte, inclinada, irregular, como a de todos aqueles que têm urgência, que pensam rápido demais. Já conheceu algum pensador, médico, jurista, escritor com caligrafia pedagógica? Eu ainda não.
Adoro esta indagação quase que querendo ser uma constatação. Afinal, minha vaidade se restringe diante de minhas mal formadas letras.


Mas voltando as cartas, já escrevi muitas na vida.
Desde que me reconheça como escriba, escrevia para minhas primas de Minas Gerais, para Irmã Dallaste em Atibaia, para meus amigos de Jacareí (quando vim morar em São José), sim, já houve um tempo em que era mais fácil enviar cartas para Jacareí do que ir até lá.
Já escrevi cartas para meu pai depois que faleceu, para meu filho antes que nascesse e para meu amor antes que se consumasse.


Escrevi até mesmo uma carta para mim, aberta quase dezesseis anos depois de escrita e guardada de acordo com orientações de Balzac.


Com o advento da tecnologia diminui as cartas, infelizmente. Mas de vez em quando ainda faço o mesmo ritual: aconchego-me numa cadeira, organizo o espaço na mesa, ajeito duas ou três folhas em branco e as inclino e com uma saborosa sensação de antigamente deixo a caneta macular o papel. São letras, palavras, frases que o preenchem e dão vida, cor e uma harmonia pouco compreensível para quem absorveu totalmente teclados e telas.
Dobro as folhas com dois vincos e guardo sempre em envelope lacrado. Nem sempre envio. Não sei dizer por qual motivo.


Mas o fato é que ainda estou intrigada: o que tanto escrevi antes de explodir? Como saber?
Bom, é hora de caminhar um pouco, estas páginas todas, deixo por aqui...


Sônia Gabriel

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Entrevista sobre Educação


Foi publicada uma entrevista no Vale Educação (Jornal Valeparaibano, 12 de outubro de 2008, suplemento Vale Educação)
A responsabilidade dos mestres
Por Daniela Borges
Gostaria que lessem e partíssemos para o debate, é importante, é assim que crescemos e nos fortalecemos, detalhe: ISTO NÃO É RESPONSABILIDADE SÓ DE QUEM ESTÁ NAS SALAS DE AULAS, TODOS QUE SE ENVOLVEM COM CULTURA POR CONSEQUÊNCIA É FORMADOR DE OPINIÃO.
Espero por vocês.
Paz e bem!
Sônia Gabriel
"as vésperas do Dia do Professor, educadora Sônia Gabriel fala dos desafios da profissão por Daniela Borges Na próxima quarta-feira comemora-se o Dia do Professor. Em meio a discussão sobre os responsáveis pelo baixo desempenho da educação no Brasil, a figura do professor mantém a sua imagem como referência ideológica da luta por uma educação de qualidade, apesar do aparente desânimo de alguns. Especialistas do mundo todo concordam em afirmar que nas mãos dos professores está o desempenho dos alunos. São esses mestres, juntamente com os pais, os responsáveis pela formação do cidadão do futuro.Mesmo com a baixa remuneração, falta de estrutura e alunos desinteressados, há exemplos de professores que não perdem a motivação e a dedicação, e encaram as dificuldades como desafio..."

Crônica: Considerações Femininas, Jornal Zona Sul Agora.


Considerações femininas

(Publicado no jornal Zona Sul Agora em agosto de 2000)


Uma nota a nós mulheres “comuns”...
Quando, quase por um milagre, nos sentamos para ver televisão, escutar rádio, ler uma revista, um jornal (afinal entra século, milênio e alcancemos vitórias, ainda acumulamos funções), nos deparamos com um bombardeio de propagandas que se propõem a nos ajudar a sermos as mulheres ideais: são cremes, para aumentar ou diminuir, levantar, tingir, enrijecer, amaciar. Cintas, aparelhos, pílulas, sucos miraculosos, enfim uma parafernália que nos permitem não aceitar quem realmente somos.
Onde está a mulher comum? Não pejorativamente. A pessoa, simplesmente. O ser.
A mídia e o mercado dos produtos miraculosos nos dividiram em opostos específicos: gordas e magras (leia-se magérrimas, beirando a deformação), altas e baixas, velhas ou novas, lindíssimas ou feias, capas de revistas e as outras.
Lembro-me da indignação com que fiquei há alguns anos quando, assistindo um programa matinal, uma famosa especialista em moda e etiqueta afirmou que as mulheres magras são melhores cabides. Cabide?
A maturidade nos traz grandes benefícios. Ninguém em sã consciência vai fazer apologia à obesidade. Gordura não é saudável e isto é de consenso social, mas daí a sair fazendo qualquer coisa para encaixar-se num padrão de senso duvidoso há uma justificável distância.
Somos mulheres. Estudamos, trabalhamos, amamos, casamos, geramos filhos e idéias, pensamos. Pensamos! O conhecimento é a nossa maior ferramenta, não nossa maior arma. Autoconhecimento.
A vida e a natureza não são estáticas, nós não somos. O tempo passa e a beleza reside aí, na possibilidade da mudança.
Ter vaidade e saúde é importante em todas as fases da vida, mas assistir meninas de dezesseis anos angustiadas porque querem colocar silicone e fazer lipoaspiração é um pouco demais, não?
Somos mulheres, não somos cabides. Nós não temos que nos preocupar em ficar bem na roupa, a roupa é que tem que ficar muito bem em nós. Somos mulheres. E mulheres, até onde eu ainda sei, têm seios, bunda, quadris, curvas...
É da nossa natureza, são nossos atributos para a sedução, para o sexo, para a vida. Não somos pouca coisa. Não somos clientes em potencial para um mercado imoral.
Se estereotipar, perdendo a consciência de quem somos, e, em qual fase da vida vivemos é um crime que cometemos conosco mesmas e é tão perverso quanto o machismo que nos é imposto.
Tenhamos 15, 20, 30, 50..., no corpo e na alma, isto é consciência de si; cada fase da vida tem seus encantos e quem respeita sua natureza e a conserva com vaidade crítica e saúde permanece bela e feliz em todas as maravilhosas etapas de sua vida.
Pense nisso.
Se o dia Internacional da Mulher já foi confiscado pela mídia e pelo mercado, se está se tornando mais um dia para ganhar lembrancinhas e flores na fila do banco, na porta do supermercado (aliás, muito apropriado), nós ainda precisamos refletir muito sobre nossa condição de mulheres.
Este ano, sugiro esta reflexão.


Sônia Gabriel

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Opinião- Jornal Valeparaibano 01/10/2004


O que me espanta é a atualidade do que registramos há tempos.


(Publicado no Jornal Valeparaibano)


Está chegando a hora

Todo ser humano é político. Frei Betto diz oportunamente que “quem tem nojo de política é governado por quem não tem”. O “nojo” que muitos têm em relação à política não se refere diretamente a ela, mas a quem a pratica.
Política é a arte de bem governar os povos e é também, por definição, a habilidade no trato das relações humanas, com vista à obtenção dos resultados desejados. Nada mais oportuno. E creio que aí resida o fato histórico do brasileiro se relacionar com um certo asco com a política.
No Brasil, por uma questão educacional, a política não é ensinada, como deveria, nas escolas, não é discutida em casa e quem o faz corre o risco de ser isolado do grupo, estereotipado de chato, acusado de perder seu precioso tempo. No entanto, os políticos são assunto constante. Os políticos se tornaram “a política”, e assim, por efeito de uma causa mal administrada, não sabemos política.
Todo ser humano é político. Faz-se escolhas durante toda uma existência e nem todas elas dizem respeito somente a nós mesmos. A vida em comunidade é a regra mãe da sobrevivência humana. O homem é o mais frágil dos seres, por isso a coesão se faz necessária mesmo que sejamos tratados como falanges sem lume.
A coesão com propósito é a força de um povo. Nosso receio em relação à vida política foi habilmente forjado desde nossa infância enquanto brasileiros.
No Brasil Colônia nossos administradores já davam conta da exploração sob a designação de Homens Bons, eram aqueles que possuíam mais recursos e influência os que respondiam por tal alcunha. Em um país que sempre viu a desigualdade imperar é fácil compreender porquê tão poucos dominam a arte da política.
Após a independência veio a luta pelo voto, luta esta que apesar de manifestar-se pela participação popular eram sempre encabeçadas pela elite (fazendeiros, jornalistas, intelectuais, advogados...) que dispunha de mais conhecimento em busca de seus interesses particulares.
No decorrer de nossa História serão muitas as lutas pela participação política, a república, o voto feminino, a extinção do voto de cabresto. Notaremos a condição dos excluídos: ou não vota ou necessita de “auxílio para votar”, afinal não têm como fazer as escolhas certas; maridos, empregadores, fazendeiros se encarregaram de direcionar o sagrado direito de escolha de modo a não atrapalhar o propício desenvolvimento da nação. E luta-se pelo voto secreto.
Na impossibilidade da interferência direta assistimos ao vertiginoso desenvolvimento da publicidade política, campanhas eleitorais milionárias, valendo-se de técnicas sofisticadas de convencimento de nós eleitores. Somos homens, mulheres, analfabetos, jovens com menos de dezesseis anos que podemos e devemos votar, é direito do cidadão participar, mas continuamos a não saber a arte da política. A de bem governar os povos.
Diante da falta de conhecimento o voto se tornou mercadoria, é trocado por cestas básicas, cirurgias, materiais de construção, a legalização de um terreno, remédios... E a mídia, escandalizada denuncia, aponta, tudo superficialmente, durante as campanhas políticas, de dois em dois anos. Não há como condenar aqueles que pensam que talvez a única coisa que conseguirão de seus candidatos é o que necessitam de imediato. Não sabem, assistem coligações de ocasião, políticos profissionais desmantelarem nossas mais profundas ideologias; desconhecem seus direitos, e principalmente seus deveres de cobrar, vigiar, interferir, não aprenderam, e não aprenderam porquê ainda se dissemina (para o nosso inconsciente coletivo) que gosto, religião e política não se discutem...
Mas se lamentam!


Sonia Gabriel

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Antologia de Contos - 2001


(Selecionado e publicado na Antologia de Contos -2001- da Universidade do Vale do Paraíba)
CONCEIÇÃO COMO TANTAS

A sensação tinha sido mágica, o vestido não era branco, não era uma cerimônia sonhada, não havia convidados, mesmo assim não deixava de ser mágico aquele momento. O casamento. Uma velha conhecida dizia “ existem dois tipos de mulheres as que sonham com o casamento e as mentirosas”, Conceição se casou. No interior pobre do Recife de 1950.
O noivo, um homem muito mais velho, forasteiro, parecia viajado, falava diferente, usava roupas diferentes, mas depois do casamento foi que ela percebeu: a pobreza era igual. Mas como não se apaixonar par alguém que não compartilhava a pobreza de uma infância, os desgostos de da adolescência, enfim alguém que não compartilhava da sua miséria, da falta de sonho. Uma esperança de enxergar lugares diferentes, de ver terra de outra cor, sentir gosto de outras comidas. Na vila todos se casavam com todos. Quanta esperança, já não era ela igual às suas miseráveis companheiras de infortúnio.
Casada, lá vem Conceição atrás do marido, atrás de esperanças que desmoronaram na cidade. A acolhida parecia se distanciando quanto mais se aproximava o asfalto, os edifícios, os automóveis. Sentia na cabeça um pouco de tontura pela fome não saciada durante o caminho, no corpo lembranças da noite de núpcias, conseqüência, preço da esperança de Conceição. Nada de beijos, se bem que mal sabia sobre beijos, a não ser pelos que viu em alguns cartões que um homem, sentado, próximo não se esforçava muito em esconder, maliciosamente olhava fixo mulheres nuas ou semi-nuas , enroscadas em homens completamente vestidos.
O marido havia se deitado com ela, não disse uma palavra. Apenas quando se conheceram fizera um gracejo ou outro, ela era moça da roça: plantava, colhia, implorava chuva para germinação, sol para colheita, menina nova, virgem. Uma a menos para comer na casa do pai. Ouvira pouca coisa da cidade, o suficiente para saber que deveria haver céu já que ali era o inferno. Conceição sentia medo pelo caminho, não tinha mais mãe para olhar, pai para grunhir. Quebrando um silêncio de horas o marido lhe fala:
__ Conceição, vai gostar de meu irmão, passei por lá faz seis anos. Tem mulher e crianças, nos recebe lá, arrumo serviço e casa depois.
Chegaram à cidade após dezesseis horas de viagem. Depois de muito andar, avistaram a casa do irmão do marido. Lugar pobre, mas rico perto da Vila, não havia asfalto, porém estava bem pertinho dele. Moravam muitas pessoas num mesmo quintal, e pela providência divina, não é que há pouco desocuparam um quarto? Tudo se realizando. Conceição tinha um marido, agora uma casa. Em poucos dias o marido arrumou um fogão de duas bocas, uma cama de casal, duas cadeiras, um armário e algumas louças... panelas que brilhavam.
Logo que se acomodaram Conceição se deitou, novamente, com o marido. Ele desde a viagem não a tinha procurado, e ela se sentia melhor assim, mas o atendeu sem queixas.
O irmão conseguiu trabalho em uma construtora, São Paulo sempre tem trabalho na construção e lá vai o marido junto. Benção ser servente dos bons.
Assim que recebeu, comprou coisas melhores para comer e alguns metros de fazenda para um vestido e uma calça e camisa de Domingo.
Conceição passava só seus dias. As pessoas falavam muito nos quartos. Quando saia para ir ao banheiro, ou, para buscar água reparava que a olhavam. Era uma estranha, sabia que não falava como eles. Soltava sons de bom dia ou o oposto. Gostava quando o marido chegava, não falavam muito, mas já não era solidão.
A cunhada era faladeira e andava pelos barracos o dia todo. Tinha muitos filhos; Conceição nunca contara, se perdia só de olhar. A cunhada vinha com umas conversas estranhas de vez em quando. Investigava para saber se o cunhado a procurava, se ainda fazia direito, já que era grande a diferença de idade. Ficava perguntando se Conceição gostava, dizia que era uma das raras coisas a que pobre tinha direito. Conceição não gostava das conversas, mas também não sabia por quê. Não entendia como uma coisa tão sofrida e desagradável podia ser de tanto gosto da cunhada.
Passados alguns meses e alguns móveis a mais o marido chega de tardinha, entra, Conceição, barriguda, o cumprimenta só com a cabeça, o marido não responde, depois fala que está sem trabalho, acabou a obra, não sabe quando começa outra. Acabada a obra, foi-se acabando a comida, Conceição ficava em casa, parada, apática, olhando... a barriga crescendo. Estava sempre calada não podia perceber-se se pensava. O marido não pagava o aluguel. Bebia o pouco que arranjava na rua. O quarto foi ficando apertado, sufocava-a, mal cheiroso, já não tinha com que lavar. Precisava de ar. Saiu.
Ela andou pelo asfalto. Cansou. Entrou pelo mato. Sentia saudade da mãe, mas não da seca e nem da enxurrada. Caminhou pelo mato, olhava o rio. Quanto ar! Passou por uma ponte. Voltou. Fitou a água clara, bonita, imaginou que no céu tinha água, comida, sol, tudo no tanto certo, é! No céu devia ser muito melhor. Imaginou um casamento, filhos, uma casa com muitos quartos. No céu devia ser muito melhor, se imaginou conversando, pensando e sorrindo, sorrindo alto. Sentiu uma enorme dor de cabeça. Havia feito um enorme esforço. Pulou
.
Sônia Gabriel

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Opinião- Jornal Valeparaibano 26/08/2008


(Publicado no jornal Valeparaibano, 26 de agosto de 2008)

Texto: O desafio da Cultura.

O texto na íntegra está abaixo (postagens anteriores)


Agradeço aos colegas que leram e enviaram e-mail, ligaram, comentaram. É na discussão que meu aprendizado vem se fortalecendo. Algumas vezes concordamos, outras não. Mas conversamos, não impossibilitamos o debate das idéias, este é o cerne da democracia.

Paz e bem!

Sônia Gabriel

Programa Realidade - Entrevista


Caros amigos, o programa que participei na segunda-feira vai ser reprisado hoje.

Nesta quarta-feira, 27/8, no programa Realidade você acompanha a entrevista da pesquisadora e professora de História e Sociologia, Sônia Gabriel, conversando a respeito de histórias do Vale do Paraíba, material que resultou na obra Mistérios do Vale. Para fazer sugestões, comentários e participar do sorteio do livro "Mistérios do Vale" escreva para realidade@redemundial.com.br ou ligue para (12) 3941-8803. Assista ao programa pelo canal 11 VHF, 18 da NET ou pela internet, às 12h e no horário alternativo, à meia-noite.
Paz e bem!
Sônia Gabriel

domingo, 24 de agosto de 2008

O Desafio da Cultura


O desafio da Cultura

Acabei de ler a matéria “Cidadão exige mais espaço e mais lazer”, jornal Valeparaibamo, 24 de agosto de 2008, escrita pelo jornalista Francisco Pereira, dentro da série Agenda 2012.
(Leia a matéria no www.valeparaibano.com.br)

Quando conversei com o jornalista e ele me perguntou quais seriam os desafios da administração municipal para a cultura nos próximos anos, fui enfática em dizer que o grande problema é a comunicação. Não há como negar os investimentos que vem sendo realizados na cultura. Não tive há algumas décadas, quando adolescente, a possibilidade de participação e aprendizado na área cultural, nesta cidade, que vejo atualmente. Há espaços, bibliotecas, museus, arquivo histórico, diversos pontos na cidade onde estão à disposição, segundo informações do próprio jornal, 380 oficinas em 42 modalidades.

Mas a grande questão é a comunicação. Não são raros colegas professores e membros da comunidade reclamarem que não ficam sabendo de tal evento. O que acontece? Já tive este diálogo com profissionais de diversos setores da Fundação Cultural Cassiano Ricardo e a resposta é sempre em tom de inquietação já que a FCCR divulga seus eventos e oficinas em jornal regional, no site oficial da instituição e no Jornal do Consumidor que pode ser encontrado em qualquer feira na cidade, além de manter vários informativos.

Participo de eventos de altíssima qualidade, e incentivo a participação de meus alunos. Mas é óbvio que, aprimorar em busca da qualidade deve ser sempre a meta de qualquer gestão comprometida. Valorizar a diversidade das manifestações culturais, principalmente. Tornar acessível a participação popular faz parte deste contexto e colocar-se à disposição para conhecer estes trabalhos deve fazer parte do contexto de nossos intelectuais.
Não obstante, já fui a palestras de renomados especialistas, nas mais diferentes e importantes áreas do conhecimento, que não contavam com mais que quinze interessados em seus auditórios.
O caminho está aberto. É preciso ampliá-lo, diversificá-lo e aprimorá-lo, sem elitizá-lo.
Desconsiderar os trabalhos desenvolvidos na cidade, onde as manifestações culturais populares são o cerne, jamais. Cabe a sociedade e principalmente aos professores, conhecer estas atividades, divulgá-las e incentivá-las, inferir no processo contínuo de resgate, preservação e valorização.

Não é admissível educadores não conhecerem as atividades que acontecem na cidade, e elas acontecem, há uma constância, são de qualidade e desconhecê-las, até mesmo para estabelecer a crítica (que deve ser sempre bem vinda) pode caracterizar uma profunda falta de comprometimento para com a profissão que exercem. Não há Educação de qualidade sem Cultura. É totalmente improvável.

Procure conhecer, participar, analisar, oferecer sugestões e exigir diversidade dentro do direito que todo cidadão consciente e ativo tem de ter acesso à Educação e Cultura de qualidade.

Professora Sônia Gabriel
Membro do Instituto de Estudos Valeparaibanos

Nas Trilhas do Zé Mira...


Faleceu Zé Mira, partiu um sonhador com os pés no chão.

Curiosamente, há muito tempo tenho vontade de ler o livro Nas trilhas do Zé Mira, de Lídia Bernardes. Semana passada, Flávia Diamante me avisa que está no Circular Clandestino do Museu do Folclore, um exemplar. Fiquei desesperada com a falta de tempo para ir buscá-lo. Felizmente era para ser meu.

Não tive a honra de conversar com Zé Mira pessoalmente. Por uma série de circunstâncias, que não compreendo, meu aprendizado não passou por sua presença física, mas li muito, ouvi muito sobre Zé Mira.

Está aqui, ao meu lado, o livro; lerei com um "quê falhei em não apressar-me". Mas com certeza terei horas alegres de leitura e principalmente, alimento para minha certeza, que se constrói, de que a cultura não é para poucos, e não pode ser cuidada por poucos, o saber está para além dos diplomas, sabatinas e pretensões de explicar os outros, o conhecimento passa principalmente por tentarmos aprender passando pelos outros e seus deslumbramentos e desmembramentos.

Zé Mira está o que sempre foi: ENCANTADO.

Paz e bem

Sônia Gabriel

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Crônica: Gente...


Gente...

Foto minha: Teto Sala das Promessas, Basílica de Nossa Senhora Aparecida - SP, 2008.


Certo artista escreveu que anda cansado, me pareceu necessitar de um pouco de ostracismo.
Gente demais sufoca. É muita energia, nem sempre boa, muita carga emotiva e de quando em quando é impossível desligar-se e conviver na justa medida. Nestes momentos, a solidão pode ser singular companheira.
Sempre estive cercada de gente, escolhi trabalhar e criar envolvida por tal matéria-prima. Assim sendo, tenho que estar preparada para tudo.
Nem sempre consigo explicar-lhes ou me explicar atitudes que transcendem o bom caráter.
E a gente fica pensando e até externa baixinho: “Como é que pode?”
Tenho visto de tudo: o veneno que escorre pelos olhos esguios de quem não suporta a paz e a felicidade que invadem os outros, o cochichar característico de quem quer ferir seu semelhante porque se incomoda sabe-se lá com o quê. E só quem se dispõe a estas cenas pode justificar a escolha do papel.

Tenho cá minhas hipóteses: o individualismo da sociedade moderna. Todo mundo trabalha muito, a necessidade de consumismo, de TER cada vez mais, tem deixado pouco tempo para SER um pouco mais. Falta tempo com a família, faltam afeto e cuidados. Falta a abundância da vida. E como ainda não é possível comprar tudo, tem muita gente com um vazio que dinheiro, carreira e status não preenchem.

Quando a gente escreve, desenvolve um bendito de um ouvido e de uma visão que chegam a nos ferir, já que nem tudo se permite filtrar e digerir.
Haja tempo para fofocas, maledicências, arrogâncias, intolerâncias, abusos de poder (que acham que têm) e tantos outros males que nos assolam diariamente.

Sábia era dona Firmina: “É tudo casca, bem. Gente sozinha, falta sentimento.”
Deve ser.
Não tenho dúvidas: a vida é um parto.

A tentação de nos isolarmos é sedutora, mas como nos humanizarmos sem a presença de outrem?
As pessoas são imprescindíveis, não nos humanizamos sem elas. São e estão para nosso bem e nosso mal, fazem parte de nosso crescimento.
A cada dia, vejo incontáveis motivos para desistir da convivência e quando estou quase desanimando do ser humano e por tabela de mim (a não ser que achemos que estamos acima da raça), vem um fato, uma verdade, uma pessoa e às vezes uma pessoinha e renasce aquele enorme e incondicional amor que temos por nós mesmos e pelos outros também.
Há gente de tudo quanto é forma, jeito, cheiro, aparência; não há como não conviver, mas é preciso muita prudência para não adoecer a alma.
Cada qual constrói o escudo que melhor se ajuda às suas necessidades: uns gritam, outros ferem, há ainda aqueles que transferem suas dores para o sagrado ar de todos. Também tenho meu escudo, escolhi o sorriso. Não é pior e nem melhor que as escolhas de meus semelhantes.
Se fosse me prender nas feridas teria desistido de sorrir há anos, resolvi que as feridas é que não me impediriam, não permiti e não permito.
Eu só tenho esta vida; tenho obrigação de me fazer feliz.
Gente! Bom, nós também somos... E por mais que abale nossa vaidade (e sempre dói) somos gente igual a toda gente e só...
Cada qual com seus mistérios, suas dores, suas vitórias e alegrias, mas no fim somos gente, de alma gritante, coração pulsante, mas gente sempre...

Sônia Gabriel