quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Matéria sobre a Escola Rui Rodrigues Dória

Caros amigos, se puderem, leiam a coluna Memória do Jornal Valeparaibano. O assunto desta semana, dia 10/02, é sobre a Escola Rui Rodrigues Dória (Santana), antiga Escola Paroquial Olivo Gomes. Fala também sobre seu fundador Monsenhor Luiz. O texto é da Isabela Rosemback, está muito legal!
A matéria cita o trabalho de resgate que eu e minhas colegas professoras desenvolvemos na escola e a pesquisa de nosso colega Carlos Alberto Fernandes Pinto.

Paz e bem!
Sônia Gabriel

"valeviver
Cheia de histórias, escola Rui Dória completa 47 anos
São José dos Campos
Isabela Rosemback

Daqui a uma semana, a escola estadual Doutor Rui Rodrigues Dória completa 47 anos no bairro Santana, à zona norte de São José dos Campos. Por ela, passaram milhares de joseenses e, muito da história e do patrimônio que ela reserva, foi descoberto recentemente por um grupo de professores.Durante as reformas da unidade, muitos dos documentos arquivados foram relidos e revelaram novas informações sobre a inauguração e a posterior venda da escola ao governo estadual.Uma dentre os professores que levantaram esses dados é a historiadora Sônia Gabriel, que reuniu dados com o intuito de um dia transformar esse histórico em livro.A construção da escola, popularmente conhecida como 'Rui Dória', foi tocada por Monsenhor Luiz Cavalheiro, padre muito querido na zona norte e que era conhecido como o "xerife" ou o "prefeito" do bairro Santana.A ideia era levantar uma unidade educacional naquele local, que era o centro da região norte da época, para que os filhos dos funcionários da Rhodia e da Tecelagem Parahyba pudessem estudar. Uma lei federal da época obrigava empresas com mais de 100 operários a oferecerem condições de ensino para os filhos desses trabalhadores.A obras tiveram início em 1961 e, no ano seguinte, a unidade foi inaugurada. Monsenhor foi quem tomou a frente da construção e, exigente que era, contratou a melhor equipe para executar o serviço. Ele acompanhava de perto a evolução do prédio, que era financiado pelas empresas.Em 1961 foi que a primeira turma foi aberta, em um sala improvisada no salão do asilo dos Vicentinos, atrás da igreja matriz do bairro. Lucila de Fátima Lima Barros pertenceu a esse grupo.A cada ano uma série era inaugurada, até que as quatro passaram a existir. "Cada ano era uma freira diferente que dava aula, mas a minha professora da primeira série deu um jeito de acompanhar minha turma todos os anos", disse.Quando foi inaugurada a unidade nova, ela recebeu o nome de "Escola Paroquial Olivo Gomes" e tinha capacidade para atender 640 alunos. A atual vice-diretora da unidade, Cleide Maria Fonseca Gouvêa Pereira, 59 anos, foi uma dentre os matriculados."Antes eu estudava na Sant'Anninha, mas meu pai trabalhava na Tecelagem e tanto ele quanto minha mãe eram muito católicos e se animaram para me inscrever. Na época todos queriam estudar nela, mas ainda era fechado aos filhos dos funcionários", disse.Ela e suas colegas usavam uniformes que se assemelhavam a um avental. Era um vestidinho xadrez azul marinho que tinha mangas e eram abotoado atrás. Nos pés, os sapatinhos tinham de ser pretos e as meias brancas.Quem dava as aulas eram as freiras da Congregação Cordimariana, chamadas do nordeste, por Monsenhor Luiz, especialmente para dar aulas a essas crianças."Todas elas tinham sotaque de lá e a gente achava isso muito chique. Elas eram mais ou menos rígidas, não eram tanto. Era tudo muito organizado, a gente andava em filas e, se um professor faltasse, enquanto um substituto não chegasse a gente tinha de ficar rezando o terço", conta.Em cada uma das salas havia um crucifixo e a oração "Pai Nosso" era rezada em todo o começo de aula. Monsenhor Luiz administrava a escola, dava aulas de religião, e andava pelo pátio brincando com as crianças.No registros da paróquia, a historiadora Sônia Gabriel encontrou uma anotação do padre que dizia que a inauguração da escola havia sido "um acontecimento de máxima importância para a nossa paróquia e um presente do céu".Na década de 1980, a escola foi vendida ao governo do estado e, em 2007, ela passou por uma reforma de ampliação. (leia texto nesta página).

Na década de 1980, Monsenhor Luiz estava ocupado com as obras do hospital Pio 12 e já não estava dando conta de cuidar da escola e dos demais projetos que tocava. Na mesma época, as empresas que financiavam a escola já estavam declinando, o que também dificultava a manutenção das atividades escolares.Neste período, então, ele decide vender a unidade ao governo estadual. Quem o conheceu de perto ou ouviu relatos de quem era muito próximo do padre, conta que ele sempre foi muito determinado e não era de pedir opinião aos outros quando tomava alguma decisão."Ele sempre inovava e construía outras coisas, como a creche. Era bem relacionado e sempre dava um jeito de conseguir o que ele queria. Seu parentesco com Carvalho Pinto e o ex-presidente Rodrigues Alves colaboravam para isso", disse o historiador Carlos Alberto Fernandes Pinto, 43 anos, autor de um livro sobre a vida de monsenhor.Quando vendeu a escola ao Estado, Pinto conta que houve uma solenidade em que estiveram presentes representantes estaduais. A historiadora Sônia Gabriel afirma que já ouviu relatos de que ele teria soltado fogos quando fechou negócio.Em 2007, a escola passou por nova reforma, que ampliou as salas e ganhou nova pintura. Mesmo assim, o cuidado em preservar a história da escola ainda é estimulado na unidade com projetos desenvolvidos em conjunto com alunos e professores. O último grande projeto de resgate histórico foi realizado em 2006.

A inauguração da escola aconteceu no dia 17 de fevereiro de 1962, em uma celebração iniciada às 17h. Uma fita foi descerrada pela viúva de Olivo Gomes. O bispo auxiliar de Taubaté, D. Gabriel Bueno Couto, foi quem fez a bênção litúrgica.Ex-alunos contam que quando as aulas começaram, os meninos estudavam em salas separadas das meninas. Outra lembrança comum, é a imagem grande de um anjo que ficava no pátio desde que a unidade foi inaugurada, mas que há um ano quebrou e teve de ser substituída."A gente dizia que era o anjo Gabriel, mas ninguém sabia que anjo era aquele. Os mais religiosos costumavam ajoelhar em frente a ele e fazer o sinal da cruz", conta a Cleide, atual vice-diretora.Esse anjo chegou a ser levado para a casa das irmãs, que fica na mesma rua do Rui Dória, quando a escola passou a ser do estado. Mas houve, à época, uma procissão de alunos pedindo para que ela voltasse ao pátio, para onde voltou e ali permaneceu até o ano passado.Em um inventário descoberto à ocasião da reforma, a historiadora Sônia Gabriel identificou muitos dos objetos e adereços que compunham a escola antes de ser vendida ao estado, mas que não existem mais.Alguns exemplos seriam as 11 persianas em estado regular, 5 porta guarda-chuvas, 10 cortinas duplas de fazenda, uma prateleira de madeira e uma estante grande de três portas de vidro."A única coisa que resta daquela época é uma antiga geladeira, daquelas pesadas que têm de ser abertas com as duas mãos", disse Sônia."

Fonte: Jornal Valeparaibano - Coluna Memória

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Coluna Crônica: A essência da beleza.


A essência da beleza

(Publicada no site da Revista Caros Amigos, setembro de 2004)

Foto: A caminho de Paraty -2009 -Sônia Gabriel.

O que é ser belo?
“Eta” perguntinha difícil! Todo dia diante do espelho milhares de pessoas se olham, se admiram, se odeiam, se envergonham, se questionam sobre o belo. Tentando cuidar da saúde procurei um conceituado endocrinologista. Eu sou lenta, aliás, faço um esforço imenso para não ser, mas sou lenta. O médico preocupado com tanta lentidão colocou-me diante de um espelho e perguntou o que eu via. Sei lá o que eu via, dizem que a gente nunca se vê de verdade. Não somos, segundo os psicólogos, tantos ao mesmo tempo? O certo é que ele, muito gentilmente, disse que a minha demora é por conta da aceitação: “Você é uma mulher bela, se aceita”.
Será que alguém nesse mundo apressado eladar da minhante chega aquela como todas as outras mulheres fazem mas que nela se destacam mais., beijos e afagos e para mim e tão virtual se aceita? Quando a gente liga a televisão, abre o jornal, as revistas... É sempre a mesma coisa. Produtos de beleza, fórmulas milagrosas, cirurgias plásticas... Tudo bonitinho e embaladinho nos chamando, nos seduzindo para alcançar a beleza ideal. E quem já não se sentiu tentando a seguir uma dessas fórmulas milagrosas?
Mas afinal como é a beleza ideal?
Para os antigos gregos (nada mais propício do que citá-los agora) a beleza expressava um modo de vida do cidadão. O grego belo era aquele que praticava exercícios físicos, zelando sim pelo seu corpo, mas era também aquele que aprendia música, discutia política, tinha gosto pelo conhecimento e pelas artes. A beleza tinha que ser construída, não era apenas o físico, tinha que ser plena também no espírito.
E foi sentada aqui diante do computador, estudando sobre a beleza que a memória, aliás, na Grécia também ela é uma deusa, me trouxe um exemplo de beleza.
No início do ano, estávamos aguardando a professora que nos ensinaria o que é posicionamento filosófico na prática do dia-a-dia, de repente chega uma mulher baixinha, baixinha mesmo, com um salto altíssimo de fazer Luis XV se torcer de inveja, cabelos loiros, olhos claros grandes e expressivos, escancarando uma saia curta que lhe revelava pernas comuns como as de qualquer outra mulher, mas que ela ostentava com segurança. Enfeitada com brincos, pulseiras e colares como todas as outras mulheres fazem, mas que nela se destacam mais. Detalhe: ela tem um porte físico que está longe dos ditos padrões de beleza e carrega a maturidade de quem sabe ser bela acima da idade ou dos quilos a mais que se tenha. Poucas vezes estive diante de uma mulher que se encaixasse tão bem numa beleza plena. Ela é bonita de se ver, de se ouvir e de se sentir. Uma mulher perfumada, aconchegante que fez de nós, mulheres adultas, uma turma de crianças, nos incomodou, nos inspirou, nos ensinou, nos acolheu e se despediu como aquela nossa professora de jardim: com abraços, beijos e afagos. Deixou a sua marca, a lembrança de sua presença. Quanto a mim, tive metade de meu caminho facilitado na compreensão do que é, afinal, o belo.

Sônia Gabriel

Opinião: Jornal Valeparaibano - Saudosismo Ideológico


Saudosismo Ideológico



( Publicado no Jornal Valeparaibano em 17/10/2004)





Mitos e produtos da sociedade, da indústria cultural devem ser considerados como superestrutura para análise de uma dada sociedade. Presenciamos a era da produção em massa, e nesse tempo a ideologia perde aquela sua essência, que era característica de seu significado e funções nos anos progressistas do capital, contra ou a favor, inclusive graças a facilidade com o qual a mídia ligada às massas penetra no inconsciente nosso de cada dia, posto que nos mantemos na condição mais literal de espectadores.A ideologia se petrifica, sua moldura utópica cai, se despedaça. A ideologia tem a sua origem no ser, ela é uma defesa pessoal e totalmente transferível, nos fortalece para compreendermos verdades que são transformadas em universais.


Produzem-se ideologias, mas só tenho visto apologias, que sejam de interesse do primeiro, segundo, terceiro, quarto ou 'quinto' poder, desculpem-me se já existirem outros não tenho conseguido acompanhar o surgimento de tantos poderes, todos querem ter poder. É mais um produto, que seja em Brasília ou sobre o controle remoto é imperativo a autoridade do poder e é antagonicamente o reflexo da falta de poder.Não há mais ideologias como as que vivenciamos, tudo se transforma, estamos em busca de quê? Quando finalmente chegaremos ao poder? Há espaço, lugar no globalizado mundo dominado por um novo imperialismo com as mesmas ambições de sempre só utilizando receitas novas? O que mais assistiremos se tornar produto? A vibração continuará se manifestando nas apologias a tudo que apenas entorpece e não permite a observância dos fatos?


Podem me acusar de saudosismo, e tenho, não das tormentas é óbvio, tenho saudades das convicções seguras e não apenas de ocasião, tenho saudade da vibração democrática.

Sônia Gabriel é professora em São José dos Campos.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Tempo de agradecer...



Saber agradecer é uma virtude, uma das pouquíssimas que possuo...
Agradeço o respeito com que tenho sido tratada pelo Vale do Paraíba e pela oportunidade que sempre me possiblitaram...
Paz e bem!
Sônia Gabriel

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Para Bárbara


Bárbara Bela

Do norte estrela
Que o meu destino
Sabe guiar
De ti ausente
Triste somente
As horas passo
A suspirar (...)

(Alvarenga Peixoto: 1743-1792)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Fotos da Chegada das Bandeiras de Folia de Reis


Foi neste final de semana o encerramento do Ciclo de Natal, a Chegada das Bandeiras de Folia de Reis esteve emocionante, conforme relato dos participantes.
O Museu do Folclore esmerou-se, os integrantes das Folias estavam contentes, sentiram-se homenageados e acolhidos, respeitados e valorizados em seu saber, como deve ser sempre!

A minha festa começou no sábado, participamos dos ensaios para a apresentação de domingo. O convite veio da Dona Luiza e Senhor Vítor, fomos recebidos como nobres em sua casa, jantamos com todos (uma delícia) e nos deliciamos com a alegria, os cantos, a devoção e a energia de todos...

O domingo favoreceu e a chuva só veio, quando o evento se encerrou, para coroar a tarde...

Celebração religiosa no encerramento do Ciclo de Natal ...


Benção para as bandeiras de cada Folia de Reis, é lindo ver o orgulho de quem as segura...


Um momento carregado de emoção, simbolismo e reconhecimento aos saberes dos mestres da Cultura Popular!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Só Parati...





Desde que li “Paraty- Encantos e Malassombras”, de Thereza e Tom Maia, sinto vontade de ir até lá com o livro nas mãos.
Nestas férias, realizei a vontade! Fomos por Cunha e voltamos por Ubatuba, viagem completa, o caminho em alguns trechos estava terrível por causa das chuvas, mas vale a pena insistir pela Estrada Real, é muito mais interessante.




O livro traz o resgate de uma cidade com seus casarões e mistérios, lendas e assombrações que circulam suas históricas e centenárias ruas. Ele é também um guia cultural, com ele fomos desvendando cada rua do centro histórico e cercanias. Enquanto encontrávamos as construções citadas, meu filho André ia lendo sobre as lendas, as histórias e estórias do local.




A Rua Dona Geralda, cheia de moradores ilustres no passado e no presente, a casa de número cinco foi a que mais encantou o pequeno, a história do tipógrafo. A Rua do Fogo, da Praia, Fresca, do Mercado. As igrejas, cadeia, praças, monumentos... Tudo convida a uma viagem no tempo e na imaginação.


Horário ideal para realizar o circuito do livro? Bem cedo. Quanto mais tarde, mais cheio fica o centro; as lojinhas lotadas e aí não é mais possível caminhar sossegado, muito menos conversar sobre os casarões e seus personagens.
Valeu a viagem proporcionada pela longa pesquisa de Thereza e Tom Maia, como sempre.
Leiam o livro, façam o roteiro, vocês se encantarão.
Paz e bem!
Energia e disposição para este novo ano que já está sendo tudo de bom.

Sônia Gabriel





sábado, 10 de janeiro de 2009

Coluna Mistérios do Vale no www.portalpinda.com.br


Um pedido especial

(Publicada no site www.portalpinda.com.br em dezembro de 2008)


Todo ano é a mesma coisa: correria, dívidas, gente empurrando, criança chorando por presentes, pais estressados socando filhos em frente às lojas abarrotadas de pessoas falando em crise. Atitudes extremamente contraditórias a um momento que nos oferece oportunidade de reflexão sobre nossa humana condição.

Mas um olhar mais atento sempre nos salva, aquele olhar cuidadoso que consegue se perder na multidão e apreciar beleza espalhada em pequenos gestos com ares de grandiosidade de alma.
São aquelas coisas que nos emocionam e não nos permitem enfraquecer e nos lembram nossa condição especial de estarmos vivos e sermos felizes...

Foi numa terça-feira, 06 de dezembro de 2005, noite.
A família entrou num shopping da zona sul de São José dos Campos.
Pai, mãe e filho admiravam a decoração de Natal quando o menino, já contando seus sete anos, perguntou-lhes se ainda poderia ir até Papai Noel. Claro que percebeu que só havia menores na fila. O pai entendeu logo o intento.
Fascinado por doces, tinha a clara motivação de conseguir a bala que o Bom Velhinho distribuía aos ansiosos pequenos.
Ele, o menino, usava aparelho ortodôntico e não podia se deleitar tanto quanto gostava com sua grande paixão.Meio encabulado e de mansinho se aproximou da simpática figura de vermelho.Papai Noel abraçou sua cinturinha e começaram a conversar. A conversa se alongou e o pai, atarefado, o chamou. Papai Noel foi categórico: ‘ espere um pouco, por favor’. Os pais sem entenderem, se resignaram a esperar.
E continuaram os dois a conversarem. Papai Noel, pensativo, mais calado.
Os pais se apoiavam envergonhados com tanta gente olhando e demonstrando irritação com a demora. Um garotinho correu e se jogou no colo de Papai Noel exigindo logo a sua vez.
O Bom Velhinho então deu ao seu colega de prosa a esperada bala, abraçou-o paternalmente mais uma vez e se despediram.
Papai Noel olhou para os pais do menino com os olhos marejando e lhes disse que seu filho o havia emocionado. Eles pegaram o garoto pela mão e saíram, olharam-se sem entender direito enquanto o garoto se deliciava com a bala.
O homem, finalmente, perguntou o que havia afinal conversado tanto e ele lhes contou: “Nada demais papai, ele me perguntou o que eu queria de Natal e eu disse que não queria nada, tenho tudo que preciso. Ele ficou me olhando e falou de novo que eu poderia pedir alguma coisinha então. Pensei e falei para ele que eu queria que todo mundo que não tem nada ganhasse alguma coisa e que ninguém no mundo inteirinho fosse infeliz. Ele ficou quietinho e depois disse que esse pedido é muito difícil, mas que ele ia ver o que poderia fazer”.Pai e mãe se calaram e deixaram que ele aproveitasse seu doce naquele momento ainda mais doce e angustiante para quem já não consegue imaginar o pedido realizado.

É como se a pobreza e a tristeza fizessem parte de nossa natureza. Emocionamos-nos com um amargo de resignação, mas será que não pode ser realmente diferente?


Sônia Gabriel

domingo, 21 de dezembro de 2008

Coluna Crônicas Jornal Valeparaibano: Aceitar o Outro



Aceitar o outro


(Publicado no Jornal Valeparaibano em 20/04/2005)



Já parou para pensar se você realmente aceita o outro? Não estou falando do outro seu parente, seu vizinho, seu amigo. Estou me referindo aos outros. O outro que pensa diferente de você, que ama diferente, que vislumbra diferente.

Pôr-se no lugar do outro é uma das tarefas mais dificultadas pelo ser humano. Ser mais real que o rei parece ser uma tendência que nos persegue. Por que nós somos mais importantes que os outros? Por que só nós somos os mais bonitos, os mais capazes? Até que ponto podemos sucumbir tanto a uma sociedade tão individualista? Qual a dificuldade em aceitar as próprias limitações? Por que a angústia de ser evidente sempre?

Não precisa. O que você é, faz, pensa, está sempre visível, não somos tão artistas assim para nos ocultarmos constantemente, e contrariando nossa vontade suprema da soberania, deixamos transparecer e muito nossos valores, nossos defeitos, enfim nosso eu.

Me desculpem os especialistas mas para uma sociedade mais sã não precisa muito: ama teu próximo como a ti mesmo! Não precisa amar nas conceituações de amor pré-estabelecidas pela modernidade. A palavra chave é: respeito. Respeito pelo outro, respeito pela Terra, respeito por si próprio.

Não está na moda ponderar. Vemos de tudo: tem gente que precisa ser do contra, não interessa contra quem ou contra o que, tem gente que não aceita quem é do contra. Tem gente que tem um otimismo exacerbado beirando ao patético, tem gente que não acredita em tanta boa vontade assim.

Difícil? Não. Respeito!

Somos seres humanos, isso implica uma massa cinzenta desenvolvida capaz de encontrar soluções, capaz de criar, capaz de uma inventabilidade divina. Somos pessoas: temos alma, coração, sentimos. Não é possível não conseguir se colocar no lugar do outro, se nós também somos o outro deles.

O homem é impressionantemente capaz de dificultar a arte de ser feliz. Ser feliz é simples. Basta se lembrar dos momentos realmente felizes de sua vida para comprovar essa hipótese.

Sorrir, sinceramente, para os outros não nos machuca. Valorizar o que o outro tem de bom não pode nos mortificar. Ser infeliz e disseminar a ironia, tristezas, dá muito trabalho. Deve ser um gasto de energia!

Olhe para o outro sem a tela do preconceito e da superioridade, veja o outro, ponha-se em seu lugar, nem é tão difícil. Tenho exercitado, caio aqui, levanto ali, mas tenho me tornado uma pessoa melhor. Vale a pena.


Sônia Gabriel, São José dos Campos é historiadora e pesquisadora.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Para Guardar: Rita Elisa Sêda

Rita Elisa, não sou uma fotógrafa como você. Nem imagino ilustrar uma poesia tão linda, apenas desejei demonstrar o quanto suas palavras me tocaram o coração. Este foi sem dúvida o mais belo presente que esta criança poderia receber, a mãe está emocionada.
Paz e bem!
Sônia Gabriel


Mistérios de Sônia

(para Sônia Gabriel)

Batem dois corações no mesmo corpo,
No comando de um Maestro, uma orquestra de amor.
Os corações batem em ritmos diferentes,
E ao mesmo tempo são somente um.
Um pulsa rápido, recebe a vida,
O outro pulsa normal e dá a vida.
Um quer conhecer o mundo,
O outro lhe dá essa oportunidade.

Há música por todo lado,
Só quem a ouve sabe os Mistérios da maternidade.

Leva-se certo tempo para esse aprendizado.
Depois... depois vem o desmembramento físico
Vem o choro, vem a respiração, vem a amamentação.
Dois corpos separados serão transformados,
Um nutre, o outro é nutrido. E vice-versa!
Mas o que mantém o crescimento de ambos
É o espírito formado,
Esse... não há separação!

Rita Elisa Seda

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Opinião: A Volta do Sonho


A Volta do Sonho

(Publicado no Jornal Valeparaibano em 15/09/2004)

A análise das tendências pedagógicas no Brasil deixa evidente a influência dos grandes movimentos educacionais internacionais, da mesma forma que expressam as especificidades de nossa história política, social e cultural, a cada período em que são consideradas. A história do Brasil já vivenciou inúmeras mudanças: iniciamos com uma pedagogia elitista própria para aqueles que a criaram, passamos por uma pedagogia renovada, sobrevivemos ao tecnicismo educacional que coexistia com a interrompida (pelo Golpe de 64) pedagogia libertadora. As evidentes transformações sociais e principalmente econômicas, pois além da preocupação com o ser estava a preocupação de conservar padrões sociais estabelecidos e preparar trabalhadores para servirem as máquinas, nos direcionam para uma nova tendência: a da pedagogia empreendedora.

A evolução da nova escola passando pelo posicionamento filosófico de uma educação Construtivista, vislumbrada por alguns teóricos como Construtiva, só poderia caminhar para o fazer e principalmente para o saber fazer.

A conotação política do Empreendedorismo é óbvia, haja vista a quantidade de profissionais qualificados que não conseguem entrar no mercado de trabalho, as profissões que estão deixando de existir ou então se transformando. Quantos empregos o atual governo já conseguiu gerar dos milhões prometidos? A criatividade, a iniciativa e a autonomia serão as características essenciais para a nova geração.

É a volta do sonho. Aquilo que a escola e a sociedade produtiva capitalista nos tiravam, por acreditar ser sinal de preguiça, alienação, terá que ser, por nós, ensinado.Um tempo para sonhar. Só quem sonha é capaz de criar, o sonho é ferramenta básica para empreender.

Sônia Gabriel,pesquisadora e educadora em São José.

Um pouco sobre Educação...


Problemas da Educação

(Publicado no Jornal Valeparaibano em 18/06/2004)

Segundo a Educadora Guiomar Namo de Mello, os problemas da educação brasileira passam por uma cultura escolar elitista, pela falta de visão estratégica por parte do governo, pela gestão pública ineficiente que gera uma falta de fiscalização das políticas públicas voltadas para a educação; a educadora enumera ainda a falta de aprofundamento por parte das mídias no Brasil quando o tema é a escola e as tendências educativas, e questiona os interesses corporativistas e a estrutura precária de formação do educador.
Nada de novo, mas a coragem de novamente bater em todas essas teclas é nobre. Todas essas questões são as mesmas que anos após anos os estudiosos e educadores sérios levam para suas salas de aula, mas eles são poucos. Todas as questões estudadas e largamente debatidas são de profunda pertinência, mas ainda penso que as mais relevantes das pertinentes se referem à formação de educadores e a visão elitista da escola.
Os mecanismos de verificação que o governo criou para desvendar a qualidade do ensino superior não são eficazes, e no que tange a cursos de licenciatura precisam ser revistos, modificados principalmente em relação aos professores universitários
Mestres que nunca entraram em uma sala de aula dos ensinos fundamental e médio, que conhecem a realidade de professores e alunos apenas dos livros e programas de televisão não podem nos ajudar a encontrar soluções reais para nosso cotidiano. Quem está na linha de frente quer ouvir respostas e está disposto a procurar por elas e até mesmo construí-las se esse é o fato, mas necessitam de auxílio. Precisamos de mestres que saibam do que estão falando, que compreendam a essência do pensamento pedagógico, que sejam capazes de discernir o novo do modismo inconseqüente. A reforma será bem feita se começar por aqueles que mexem com nossas cabeças e emoções, ensinar é algo vivo, mexemos com cabeças e emoções o tempo todo.
O conhecimento é mais que um punhado de títulos, de preferência que venha acompanhado, também de verdade. Todos os outros problemas da educação poderão ser compreendidos melhor pelos profissionais do ensino quando estes forem formados com uma visão de mundo que os permita compreenderem-se, compreenderem seu mundo, compreenderem o mundo do aluno e o próprio, com verdade.
Os educadores brasileiros que enxergaram a realidade e não se amedrontaram diante dela, nem se esconderam atrás de sua autoridade intocável de mestres, conseguiram ao menos dar sentido a sua profissão. Penso muito em Paulo Freire quando o desânimo bate, sua vida profissional teve sentido, longe de um apostolado, como muitos afirmam, vejo nele uma coerência profissional.
Eu não posso escolher os alunos que terei, são pessoas, serão sempre eles próprios, com suas alegrias e mazelas, com seus talentos e dificuldades, mas posso escolher o educador que serei, podemos todos fazer a diferença, e ainda acredito, como um João Batista gritando no deserto, continuarei afirmando que é preciso ensinar antes de cobrar.

Sônia Gabriel, São José dos Campos.



Devido texto acima, fui convidada a participar do programa do jornalista Roberto Wagner, ele escreveu sobre o debate. Foi um grande aprendizado para mim.
Fonte: http://www.valeparaibano.com.br/, acesso em 10/12/2008.
"Conversa de Domingo
Roberto Wagner de Almeida
Ponto de Vista
Ainda a Questão da Educação
Há cerca de um mês, fiz aqui um comentário cético, sob o título "Brasil, Pátria da Ignorância". Baseava-me, então, em dados divulgados pelo próprio Ministério da Educação que, após a realização do SAEB - Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica, chegara a resultados estarrecedores. Por exemplo: 55,4% dos alunos da 4ª série do ensino fundamental, tanto de escolas públicas quanto privadas, estão em situação "crítica" ou "muito crítica", significando que mal sabem ler ou escrever, pois "não compreendem textos simples". O mesmo SAEB constatou que 68,8% dos alunos da 3ª série e 57,1% da 8ª série estão em situação "crítica" ou "muito crítica" no que diz respeito à matemática, porque "não sabem fazer operação de soma ou subtração envolvida em um problema". Imagine-se o que aconteceria se tivessem que multiplicar ou dividir. Indaguei então, e volto a indagar agora, o que podemos esperar de um país cuja juventude se revela cada vez mais ignorante? Indaguei também como se explica que, embora todos reconheçamos que a educação é base fundamental na construção de um país, não haja um único governante nosso - do município à federação, passando pelos estados - que faça do ensino nas escolas a sua prioridade máxima.

Esse tema me preocupa tanto, que promovi, dias depois, em meu programa de entrevistas e debates no rádio, o "Show de Idéias", um debate a esse respeito. Tive como convidadas uma professora da rede estadual, Denise de Paula Costa, uma da rede municipal, Flávia Camargo, uma de escola particular, Sônia Gabriel, e uma psicopedagoga, Cecília França. Nenhuma pôs em dúvida a exatidão das constatações do SAEB, todas concordaram que a situação é realmente aquela apontada na avaliação nacional feita pelo Ministério da Educação. Ao longo das duas horas do programa, tivemos muita intervenção por parte dos ouvintes, com algumas contribuições muito significativas. O professor Gérson Munhoz dos Santos, por exemplo, que é professor universitário aposentado pela Unesp e foi membro do Conselho Estadual de Educação, questionou se não deveria ter sido feita uma experiência-piloto, com grupos pré-selecionados, antes que se adotasse o sistema de progressão continuada, em que o aluno é promovido de série mesmo sendo reprovado nos exames.
Admitiu-se que essa experiência-piloto teria sido conveniente, e ficou-se sabendo que o novo sistema foi introduzido com muito pouca explicação prévia às professoras que passariam a adotá-lo, e que elas jamais foram solicitadas a opinar sobre o que achavam dessa alteração, pois a decisão foi tomada de cima para baixo, sem possibilidade de discussão, muito menos de eventual contestação. Vale lembrar que, embora o sistema da progressão continuada tenha se tornado conhecido a partir do momento em que foi adotado em toda a rede pública estadual pelo ex-governador Mário Covas, sua introdução deveu-se ao renomado educador Paulo Freire, durante a gestão petista da prefeita Luiza Erundina em São Paulo. Soube-se também que o sistema vem sendo adotado na rede pública municipal de São José dos Campos desde 1996, antes de sua adoção na rede estadual. No geral, entretanto, as professoras admitem que o sistema é válido, na medida em que evita o mal maior que é a evasão escolar. Ou seja, é preferível manter na escola um aluno cuja aprendizagem pouco evolua, a ter que vê-lo abandoná-la devido a sucessivas reprovações, entregando-se à marginalidade das ruas.
Mas ficou claro, também, o inconformismo das professoras. Elas se queixam da constante alteração de métodos e programas baixados autoritariamente de cima para baixo, de tal forma que, segundo afirmaram, mal se pôde aferir o resultado de um e já se recebe ordem peremptória para que aquele seja abandonado para a adoção de outro. Mal remuneradas, as professoras têm que buscar emprego em diferentes escolas, públicas e privadas, restando pouco tempo para se dedicarem à reciclagem de conhecimento e ao próprio planejamento de suas aulas. Trabalham, principalmente na rede pública, com salas em que há sempre um número excessivo de estudantes, impossibilitando uma dedicação específica a alunos que apresentem dificuldade de aprendizagem. Citou-se o exemplo de uma escola estadual de São José onde há 350 alunos e uma única orientadora pedagógica, para os três períodos - manhã, tarde e noite. Se isso ocorre na segunda maior cidade do interior de São Paulo, imagine-se o que deve ocorrer no Norte e Nordeste do país.
A certa altura, mencionei os dados que acabavam de ser orgulhosamente divulgados pela Secretaria de Estado da Educação, com a presença do próprio governador Geraldo Alckmin, obtidos pelo Saresp - Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo. Muito diferentes dos dados do SAEB, que incluíam as escolas paulistas, os do Saresp garantiam, por exemplo, que 53% dos alunos da 1ª série das escolas públicas do Estado de São Paulo já eram capazes de escrever "um texto coerente", percentual que aumentava para 75% entre os alunos da 2ª série. Questionadas, uma a uma, as quatro participantes do debate admitiram acreditar mais nos dados do SAEB que nos do Saresp, pois o que testemunham em seu dia-a-dia é aquela situação "crítica" ou "muito crítica" de alunos que, na 4ª série ainda mal sabem ler, escrever ou entender textos simples. Uma semana depois, o próprio Governo do Estado admitiu que os resultados do Saresp podem estar "maquiados", pois cometeu-se a ingenuidade de permitir que as mesmas professoras que aplicaram os testes lhes fizessem a correção. Quantas professoras, nesse caso, terão cuidado de arrumar os textos de seus alunos, para que elas próprias não ficassem suspeitas de ineficiência na prática do ensino?
Saí daquele debate com duas convicções. A primeira é de que há gente muito competente na área da Educação, impressão nítida que me deixaram as quatro convidadas do programa. A segunda é de que se faz necessária uma gestão menos centralizadora e menos autoritária por parte das autoridades da Educação, procurando discutir previamente com as professoras a adoção de novos programas, métodos e currículos, tanto quanto é necessário um esforço para reduzir o número de alunos por sala, pagar salários que não obriguem as profissionais a lecionar ininterruptamente de manhã à noite, e estabelecer sistemas de avaliação de desempenho das próprias professoras. Sim, porque elas também admitiram que há colegas que não têm a menor preocupação em se aperfeiçoar, que se colocam contra qualquer inovação e "embora sendo minoria, dão muito trabalho" - essa a exata expressão que ouvi."