quarta-feira, 16 de março de 2016

Coluna Crônica Jornal de Caçapava: Muda de felicidade.




(Jornal de Caçapava, 04 de março de 2016.)


Manhã de domingo sem horário de verão, deu pena de mim. Sim, sou daquelas pessoas que amam o horário de verão, pois gosto da claridade. Quanto mais demora em anoitecer, mais feliz eu sou. Gosto de sair no final da tarde, e ainda ter luz natural, para organizar a rotina da casa, papear com as amigas e tomar sorvete com a criança que me alegra os olhos.
A manhã estava menos manhã, ainda preciso de alguns dias para me acostumar. O sol já queimando a moleira. Passei café, ajeitei as torradas no prato, os servi. Meu marido me convidou para comprar uma muda de jabuticabeira para fazer companhia para a muda de acerola que já está firme na terra. Ele acha bonita a árvore. Contei para a menina, que agora ela terá que se dividir entre ser Emília e Narizinho, pois a segunda se deliciava com as bolinhas pretas tão docinhas. Fiquei sonhando com a árvore crescendo, se espalhando pelo quintal, gestando sombra para os finais de tarde em que estarei sentada no banco de jardim que ainda providenciarei. Sonhei profundo a ponto de sentir o cheiro da fruta.
A muda ficou me olhando com aquele jeito soberano de quem sabe que vai ser alta, frondosa, produtiva, cheirosa, sedutoramente verde. A muda sabe a árvore que será sendo a terra boa, o adubo farto, a alegria chovendo na quantidade certa. A muda sabe de si. Sábia, ela aceita os cuidados para ser o que sabe que será.
Continuei de prosa com a jabuticabeira enquanto ia aconchegando, no carrinho, as mudas de alface, de pimenta, de capim-cidreira, de manjericão, de flores que abrem onze horas, já que o horário de verão acabou.
Estou fazendo um quintal que tem gente que acha que será uma horta; tem gente que acha que será um jardim; tem gente que acha que será um pomar; e eu sei que será um tanto de cada, pois a muda mais importante que estou plantando é um bocadinho de felicidade. Felicidade que nem manhã de domingo, que nem tarde de sábado, que nem noite de sexta-feira quando saímos para namorar. Estou plantando muda de felicidade que nem manha de bebê da gente, que nem sorriso de menina que vai para o primeiro ano escolar, que nem marido que nos acompanha até a feira, que nem amiga que combina café no Parque Santos Dumont só para estarem juntas celebrando poder estar junto.
Estou plantando muda de felicidade e pedindo a Deus para saber adubar, regar e amar o suficiente para que ela jamais volte a me abandonar. 
Boa colheita para todos nós!

Sônia Gabriel


domingo, 15 de novembro de 2015

Coluna Crônica Jornal de Caçapava: Por quem dobram seus joelhos...



(Jornal de Caçapava, 13 de novembro de 2015.)


Estive em Aparecida sábado passado. Levei minha mãe e minha tia acompanhadas dos meus filhos. Mas antes de tudo eu me levei. Retomo meus escritos sobre o Vale do Paraíba. Essa caminhada que começou pelos mistérios, passando pelos personagens enigmáticos, agora se direciona para os lugares e as pessoas que dão vida à paisagem. Sim, sempre as pessoas.

Reinicio minha caminhada por Aparecida, cidade que nasceu de uma das mais belas histórias do rio Paraíba do Sul. Uma história de fé dos pobres, fé dos piraquaras, fé dos negros escravizados. Fé dos milhares de romeiros que, a cada ano, se dirigem para as margens, agora distantes, do rio de águas sagradas.

Aparecida é uma cidade que, à primeira vista, pode não seduzir olhos estreantes pela beleza. Ruas apertadas, morros, excesso de comércio e ambulantes que impedem um caminhar mais sossegado. Confesso que aprecio mais os arredores da antiga Basílica: história, lenda e devoção se entrecruzam com a diversidade de cores e pessoas. Jovens, crianças, idosos carregando as marcas do tempo e um semblante de esperança do que buscam.

As pessoas são o que de mais especial encontramos em Aparecida, além, claro, da substância do conceito de mãe. Isso ainda mistério para a humanidade.

Já tive a tentação e pouca humildade de achar absurdo alguns pagadores de promessas; quando via aquelas pessoas se arrastando, ajoelhadas, me vinha a soberba de pensar que era demais. O tempo, o amadurecimento e a vida se encarregam de nos dar as, realmente, importantes lições. Hoje, quando vejo os pagadores de promessas, em sua entrega mais profunda, só me vem ao pensamento que cada um sabe por quem dobra seus joelhos.

Sim, por quem. Por si mesmo, por outros; sempre por quem.

Desta feita, passei na redação do jornal O Lince, conversei com Alexandre Lourenço Barbosa sobre livros, jornais, histórias e pessoas as quais prezamos muito. Ganhei livros muito especiais e tomamos um café maravilhoso feito por sua esposa. Depois de “romeirar”, passando pela passarela, olhei com olhos de amor aqueles que dobravam seus joelhos e pensei nos tantos viveres nossos de dores, alegrias e gratidão.

Amém!

Sônia Gabriel


Típica...








segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Coluna Crônica Jornal de Caçapava: Considerações de fim de tarde.


(Jornal de Caçapava, 29 de maio de 2015.)





Coluna Crônica Jornal de Caçapava: Passado que alimenta a poesia.



(Jornal de Caçapava, 24 de abril de 2015.)


Por esses dias, estive numa apresentação musical no Cine Santana, espaço que preenche a geografia e as emoções de quem vive e ou trabalha (como eu) no mais charmoso bairro de São José dos Campos. Em se tratando de lugares há aqueles que são suntuosos, chiques, populares, da moda, glamourosos; mas pouquíssimos, nos dias de hoje, têm alma autêntica. Santana é um bairro que além de muitas outras agradáveis características, tem essa alma, um jeito tão peculiar que nenhum outro bairro poderia se igualar. Coisas que só entende quem sempre atravessa a ponte seca.

Mas voltando ao Cine Santana, recebi das mãos do autor Jorge Pessoto seu livro “O Pretérito das horas” quando da minha ida para apreciar boa música. Delicado presente que muito me honrou. Agradeci a gentileza e me propus a ler durante a semana, pois os dias estão lotados de apostilas para dar conta de técnica leitura. Já em minha casa, a curiosidade foi mais urgente. Li de uma tacada só, pois é prazerosa a caminhada por suas linhas cheias de “saudade”; “tesouros perdidos” até que alguém se preste a procurá-los e mereça achá-los; moças esperando amores; “poetas embriagados” que creio saibam viajar pelo passado e pelo presente e “poetas falidos” (intrigante, eu admito). Jorge Pessoto escreve como quem fala de um parente muito próximo, escreve com intimidade com as vielas que se propõem a eternizar. Contraditoriamente, viajei tranquila pelas antigas ruas lapidadas por suas histórias em versos; ruas que ele diz esquecidas, das mortas cidadelas das quais ele não se esquece. E por não esquecer-se as mantém vivas. Se agora é nesse exato momento, o passado é uma imensidão de, licença poética, agoras que faz aquilo que chamamos de hoje.

O Vale do Paraíba é assim, real ou fictício por desejo ou por ignorância daqueles que dele querem o que querem. Sinto que o autor se alimentou da vontade nascida de uma saudade (a que ele tanto recorre, legitimando-a), reconhece e nos entrega o “O Valor das Miudezas”, nos descrevendo a velha costureira e eu imagino, a partir de sua descrição, que o melhor que costurava eram os sonhos; que o que dava liga aos seus cozinhares era carinho; que de tão singela alimentou o imaginar do autor. Cidades mortas cheias de gente viva, com pessoas que esperam enquanto descansam da labuta e anseiam pela colheita e zelam pelas plantas e esperanças, amados pelo Paraíba e pela Mantiqueira enigmáticos. Vale do Paraíba, dos que andam por suas ruas, margens e morros...

Naquela página fiandeira, lamentei pelos vestidos nascidos “para as missas / E, raramente, para casamentos.”, pois eu amo casamentos. Ah, as donzelas que Jorge Pessoto descreve; melhor lerem, sinto que guardam histórias que não podemos. E aqui, me atrevo a considerar, Jorge, que quando os “sonhos escapam” é para viverem, sonho quer ser realizado, escapa para SER. Dos seus que escaparam encontraram-se com a impressora, acertei? Mas se os sonhos escapam, a alma foge para a rua, pois na rua o olhar para o casarão é mais amigo e se “a alma quer um porto” o busca por meio da poesia. Percebo os amores que quase fogem do controle do seu teclado, mas não se evidenciam deixando sempre um ar de mistério de algo que ainda não foi dito; há um aparente romance entre a alma e o tempo em seus versos, ambos se desencontram, o autor aqui se torna o arquiteto a construir ruelas, ladeiras, janelas e praças para que esse encontro se faça?

Encontrei muita graça quando em “O Passeio de Casa até a Praça”, a tinta desenhou “um sossego desesperador e inquietante.” E mesmo diante desse retrato vejo que o observador não se impediu de sorver as belezas do caminho e elas estão aqui linha após linha, carregadas das nuances, cores e humores do seu autor que enfim não esteve a “poetar inutilmente e sem sentido”.

Prezado autor, eu não sou talhada para a crítica nem nunca serei, meu ofício em relação às letras é outro, vivê-las e apenas. Não tenho a competência para analisar literariamente seu trabalho, mas posso como leitora dizer que foi um prazer ler suas linhas e me vi, sim, muitas vezes, caminhando por nossas antigas e sedutoras ruas vale-paraibanas repletas das histórias que eu tanto amo. Obrigada por escrever. Sucesso.

Sônia Gabriel


Jornal O Lince - Aparecida



Alexandre Marcos Lourenço Barbosa, seu trabalho sério e competente já abriu as portas para muita gente. Eu sou fã do Jornal O Lince, e mais do que fã da leitura, sei da importância que o jornal tem para o Vale do Paraíba. Minha coleção se ampliou com sua generosidade e pretendo continuar com essa leitura atenta. Ah, a edição do livro "Dez histórias", do especial Tom Maia, está excelente; já estou me deliciando com as histórias. Foi um prazer revê-lo, é uma alegria continuar nossas conversas. Obrigada pelo carinho com que recebeu minha família (café maravilhoso!). Em março, estarei ai... Bom trabalho para todos nós! Paz e bem!





domingo, 13 de setembro de 2015

Versos Diversos SESC São José dos Campos - Convite - 2015



Caros amigos, 

Reservem essa noite para mim? Recebi o convite do SESC para dividir com vocês minhas impressões de um dos meus livros preferidos, uma obra que me inspira em muitos momentos de criação e na vida...
Venham conhecer um pouco sobre a obra sob o olhar de uma leitora apaixonada por Baltasar e Blimunda, criações de José Saramago em 'Memorial do Convento'. 
Espero por vocês para um bom bate-papo.
No SESC São José dos Campos, dia 17 de setembro, quinta-feira, às 19h30min.




Paz e bem!
Sônia Gabriel

Foi lindo! Compartilho as imagens e gratidão!












sábado, 29 de agosto de 2015

VI Dia Valeparaibano de Contar Histórias - Uma história de Brasilino Neto.



Encerrando nosso dia de contar história com categoria...



Inteligente sim, forte não.

 O Pedrão outro dia contou uma história que igualmente fez com que todos rissem pelo fato e pelo jeitão que ele desfia suas narrativas.

Disse ele que trabalhava com o Carlão, seu amigo também de quase dois metros, na Fazenda do Tião Mário, ali nas redondezas de minha casinha.

Que estavam fazendo um trabalho e se valiam para isto de uma carroça puxada por um burro daqueles no tamanho dos dois, dele e Carlão, “pois o bicho tinha mais de sete parmo de altura”, de nome de Geringonço.

Disse Pedrão que no decorrer do trabalho, no período da tarde o Geringonço, certamente por achar que já havia trabalhado demais, empacou e não ia nem pra traz e nem pra frente.

Como se não bastasse ele ainda se deitou e torceu o varal da carroça do Tião Mário, que tinha verdadeiro ciúme dela, pois segundo o Pedrão sabia, ela havia sido herdada do pai Chico Mário.

Neste instante Carlão ficou meio apavorado e nervoso pelo que ocorria, e com medo que o burro se movimentasse e quebrasse o varal, e se isso acontecesse o que ele diria ao Tião Mário ?

Continuou Pedrão a narrativa.

Carlão mesmo nervoso ainda tenta demover ao Geringonço para que levantasse numa boa, mas o burro se fazia de desentendido e nem bola dava pra o que o Carlão falava e continuava ali deitado, remexendo e arriado e preso à carroça.

Quando Carlão viu que o negócio estava ficando feio e que o burro poderia quebrar o varal o que deixaria Tião Mario louco com ele, sua paciência acabou.

Foi lá soltou o arreio, levantou o varal e tocou o animal para que ele se levantasse, quando então, pensou Carlão, “eu coloco o arreio nele e novamente na carroça pra completar o trabalho e descarregar o material que nela estava”.

E nada do Geringonço se mexer.

Neste momento o Pedrão, pra tirar uma com a cara do Carlão, falou para ele: “Carlão o Geri não tá nem ai co cê. Ele só tá oiando ocê com o rabo do zoio e só não tá dano risada por que ele não sabe ri, mais eu tô achando isso muito engraçado, pois quem vai tê que puxá a carroça até o manguero é ocê”.

Carlão muito irritado pela situação e pela gozação do Pedrão falou: “A é assim ? Então Pedrão ocê vai vê quem pode mais”.

Carlão deu uns passos na direção de Geringonço, juntou no pescoço do animal e à força tentava fazer com que ele se levantasse e o Pedrão vendo aqui somente ria da irritação de Carlão, pois o Geri nem bola dava a ele.

E pra cutucar a onça com vara ainda curta e irritar mais o Carlão, Pedrão chegou perto do Geri, que é como ele chama o animal, com o Carlão agarrado ao burro e falou: “Geri, vô dá um coseio procê: Se eu fosse ocê eu levantava e puxava a carroça até o manguero pra descarregá, e ficá tudo resorvido, pois ocê vai tê desvantage com o Carlão, pois eu acho que ocê é mais inteligente que ele, mas mais forte ocê não é, e oce só vai levá a pior. Te aconseio, levanta”.

Completou Pedrão: “Neste instante o Carlão dá uma oiada pra mim, larga o Geri e parte pro meu lado P da vida, com certeza pra me dá uns tapas, e memo sendo desse tamanhão que eu sô, cá réiva que o Carlão tava não tive outro jeito se não dá uma corrida pras coisas não ficá pior. O Carlão também ameaçô uma corrida mais parô uns metro à frente xingando toda minha famia, principarmente minha mãe e pedindo que não falasse mais com ele.”

Pedrão, mesmo tendo dado uma corrida ainda não se deu por vencido e fala pra Carlão: “Tá bão, então nois tamo de mar um co otro, só quero sabê com quem que ocê vai pras farra, vai tomá umas cachaça e proseá nos finar de tarde. Dexa está”. Virou e saiu andando com os passos meio ligeiros e com o rabo de olho observando se Carlão não vinha atrás.

Do topo do morro viu que o burro Geri se levantou e pensou, já tá tudo perdido mesmo, então perdido e meio e gritou pra completar a irritação do companheiro:  ‘Carlão, viu ? O Geringonço escutô meio conseio e viu memo que ele é mais inteligente que ocê, mas mais forte ele não é, então por isso ele se levantô’.

O Gerigonço se levantou, mas o Carlão sentou no barranco e ali ficou um tempinho de cabeça baixa olhando pra o burro e por vezes ao Pedrão que do alto do morro observada tudo, depois Carlão deu continuidade na caminhada com o animal puxando a carroça e pondo fim à labuta diária.

Carlão ficou quinze dias sem falar com Pedrão, mesmo continuando a trabalhar junto no dia a dia, mas num final de tarde se encontraram no boteco onde ‘faziam ponto’ e Carlão então falou: “Cumpadre Pedrão, senta aqui pra nois tomá essa cerveja junto e trocá uns dedinho de prosa”, como se nada tivesse acontecido e não tocou no assunto da empacada do Geringonço.

Continuaram bons amigos e companheiros da lida diária, da prosa, da cachaça e do compadrio. Trabalham e convivem e são bons amigos, compadres e felizes.


Brasilino Neto



VI Dia Valeparaibano de Contar Histórias - 2015 - Uma história de Paulo Roxo Barja.


Com o sabor do coletivo...


 O STROGONOFF do MEDO

Essa história é mesmo estranha.
Eram só dez da matina;
fui comer strogonoff
sentado lá na cantina
e já estava ansioso
esperando uma menina...

mas o tempo foi passando,
acabou-se meu recreio
e fiquei desconsolado
pois a menina não veio.
Na boca, um gosto esquisito
aumentava o meu receio.

Depois que voltei pra casa,
fui assistir o jornal:
falava-se do sumiço
de adolescentes. Brutal, 
o apresentador dizia
que era caso policial!

Ao longo de uma semana,
cada vez mais um sumia.
Eu fiquei desesperado:
já vai chegar o meu dia!
Resolvi investigar
e ver o que descobria.

A caminho da escola,
vi um restaurante novo:
"Promoção de Strogonoff
 para alimentar o povo!
 Dois reais, o prato cheio:
 é melhor que pão com ovo!"

Assustei, ao ver o lixo
que já estava na calçada:
vi uma blusa da escola
toda de sangue manchada
e um anel em que havia
uma palavra gravada.

Era um nome apenas: Lara.
Do colégio então lembrei:
a Lara tinha sumido...
entendi tudo, já sei!
Porém, nesse mesmo instante,
enjoado, vomitei.

Quando enfim criei coragem,
avisei policiais.
Restaurante foi fechado
e não abre nunca mais.
O assunto virou manchete 
nas páginas dos jornais.



Paulo Roxo Barja


 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

VI Dia Valeparaibano de Contar Histórias - 2015 - Uma história da Babi.





Pois há histórias que são eternas...



VI Dia Valeparaibano de Contar Histórias - 2015 - Uma história de Giselle Lourenço.



Toda história tem uma história, vejam...


"Discurso sobre o Dia do Vizinho, pronunciado no dia 20 de agosto de 2015 por ocasião da comemoração do aniversário natalício de Cora Coralina no encontro literário “O Poder da Palavras” em São José dos Campos.
Vizinho: palavra de origem latina (vicinus). Significa "aquele que é da mesma aldeia". Aldeia, por sua vez, significa "um loteamento de pequenas proporções".
Avizinhar-se então, poderia ser entendido como relação com aquilo que está perto. Foi assim que viveu seus dias sobre a terra a Dona Cora Coralina. Mulher que soube estabelecer uma relação com tudo que lhe rodeava:
Na vertical, sob seus pés, o mais próximo era a terra. Seu chão de terra, como ela falava. Uma vez percebido seus pés próximos ao chão, nunca mais deixou de reconhecer que a força e o sustento lhe vinham da terra. Foi uma cultivadora de terras, entre sementes, entre flores, entre frutos... No milharal de sua gleba, a expressão máxima de seu cuidado. Portanto, mulher vizinha da terra. 
Na horizontal, percebeu que nenhum de nós é sozinho no mundo. Aprendeu, desde muito cedo, que a relação com o outro é o que nos dá uma ideia de nós mesmos e que é no trato diário com as pessoas que retiramos da vida o sumo bem. Entre amigos, construiu sua fortaleza de pedra. Portanto, mulher vizinha dos homens.
Mas há uma vizinhança em Cora Coralina que precisa ser compreendida para além da rua, para além do bairro, para além do prédio...
No tarde da vida - expressão dela própria - suas portas estavam abertas para o Brasil e para o mundo. Na mocidade, estava acessível a quem dela quisesse se aproximar, dado o teor de suas crônicas e a profundidade de suas exortações, pois só fala de coisas profundas quem não tem medo da intimidade.
Intimidade é algo que, hoje, está em desuso. Intimidade exige compromisso, exige cuidado. Não temos tempo para cuidar. Cada um por si; deus, se ainda não morreu na contemporaneidade, talvez não seja por todos. E assim seguimos, ignorantes do significado de "vizinho". 
Avizinhar-se é para quem tem disposição, para quem tem vitalidade na alma. A mesma vitalidade que pulsava no coração da Mulher-Monumento de Goiás, que avizinhou-se do Brasil e que hoje, tendo deixado tão estimada herança em suas obras, nos ensina e nos inspira a uma vida mais vizinha.
Diziam os que conheceram Cora que ela mantinha zelo e cuidado pelas fontes e nascentes. Dizia que era necessário cuidar da fonte. Sabedoria ambiental e humana! Cuidar do vizinho é cuidar da fonte. A célula que manterá nossas relações e propulsionará a fraternidade universal começa em nosso raio de visão e de ação. Cuidando do vizinho, que é a luz da rua, cuidamos da fonte de energia que propagará o amor em nossos dias e para as gerações futuras.
Em sua mensagem, Cora dizia que a sua geração não a compreenderia... Portões trancados, correntes, cadeados, muros. É uma convenção trancar-se, e às vezes necessário também, pois desacostumamos do cuidado. Se alguém se abre, se doa, inspira outros à doação, dificilmente é compreendido. Eu receio que não somente a geração da poetisa não a compreendeu, mas também nós, ainda hoje, somos resistentes e ignorantes de muitas de suas mensagens. Estamos num processo. Aqui, nesta geração – a minha geração - começa um desvelar de Cora, recebendo sua mensagem com inquietações; mas ainda há muito a ser contemplado e um véu a ser rasgado sobre a grandiosa espiritualidade que abarca sua poesia viva e escatológica. 
Faço votos de que, ao menos, o esforço da proximidade e da vizinhança seja, por nós, melhor considerado e que Cora, com seu arsenal de bons amigos, nos ajude a cultivar os nossos.
Encerro com um trecho/pergunta de sua autoria quando da apresentação do Dia do Vizinho em Andradina (1968), para que os brasileiros de meu tempo, tão carentes de vizinhança (e eu me incluo nisso), em um momento de incertezas e desencontros no qual vivemos, possam enxergar nos versos coralineanos algumas luzes para o cultivo de nossas fontes mais naturais:
"Por que nos fechamos tão hermeticamente na nossa rudeza individual se a vida nos põe sempre juntos em encontros frequentes e cotidianos e se temos tanto para dar de nós e tanto para receber dos outros?..."


Fonte: Cora Coralina, Raízes de Aninha. Ideias e Letras, 3ª ed., 2011


Giselle Lourenço


VI Dia Valeparaibano de Contar Histórias - 2015 - Uma história de Sonya Mello.



Apreciem a delicadeza dessa história...


"Mistérios de Cachoeira

No Vale do Paraíba, há mais mistérios do que se pode imaginar. Tive uma experiência que eu diria ter sido, “sobrenatural” e aqui, vou relatar.
Estava fazendo uma obra, em homenagem à cidade de Cachoeira Paulista. Baseando-me numa foto feita pela escritora Sônia Gabriel, pintei uma rua com várias casas brancas, de portas e janelas azuis. Como Cachoeira Paulista é a terra natal da escritora Ruth Guimarães, decidi fazer uma homenagem à ela e assim, defini uma daquelas casinhas como sendo dela e a coloquei em frente à casa escolhida.
À frente da escritora, eu deveria pintar uma rua mas, achando pouco criativa esta ideia, decidi fazer passar ali, o Rio Paraíba. Fiz nele algumas “ondas” e, para deixá-lo colorido, decidi pintar também uma canoa atada à beira do rio.
A obra ficou pronta e a deixei de lado.
Comecei então, a fazer outra obra, só que desta vez, em homenagem à cidade de São Bento do Sapucaí. Nesta obra, estou homenageando a escritora Eugênia Sereno e seu tio, o jornalista Plínio Esteves Salgado. De repente, me deu “um branco” e me esqueci que grau de parentesco era Plínio Salgado, de Eugênia Sereno. Tomei nas mãos, o livro “A Menina dos Vagalumes”, de autoria de Sônia Gabriel e Rita Elisa Sêda, e comecei a folheá-lo para encontrar a informação que eu precisava.
Na página 53 do livro, me deparei com a seguinte informação: ...”Realmente, o Vale do Paraíba tem uma bela safra de diamantes intelectuais. Olga de Sá nos apresenta um deles: Ruth Guimarães, escritora, jornalista que ‘nasceu em Cachoeira Paulista e está integrada em sua cultura e paisagem como os artesões que ama, como o Rio Paraíba e a Serra da Mantiqueira’. No romance Água Funda, Ruth descreve a vida da Sinhazinha Carolina que se apaixonou por um homem de 20 anos de idade e essa foi a sua ‘disgraçera’, pois ele roubou tudo que ela tinha. A história tem densidade poética e faz com que o leitor viaje pelos lugarejos apresentados sinestesicamente. ‘A gente passa nessa vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco e depois não fica mais nada’.
Quando li esse trecho do livro Água Funda, me deu até um arrepio: eu havia pintado exatamente a água bolindo e a canoa amarrada às margens do rio. Tinha tudo haver com a obra da escritora homenageada. Isso, para mim, é a mais viva prova de que o Espírito Santo de Deus age em nós, se permitimos. Peço perdão à Ruth Guimarães pela minha ignorância em relação à sua obra, que agora, irei pesquisar. Mas tenho que manifestar meu espanto pois, não acredito em coincidências mas, em providências!
Ruth Guimarães, é para a senhora que eu dedico essas palavras! Através de sua existência, pude viver uma experiência, no mínimo, inexplicável. Eu pintei a “história” de uma obra que eu ainda não conhecia. Sou grata pela sua presença, Ruth Guimarães, fazendo diferença na minha vida, de um modo tão “sobrenatural”!"


Sonya Mello


VI Dia Valeparaibano de Contar Histórias - 2015. Uma história de José Bueno Lima



Curtam essa especial história...Obrigada por compartilhar, caro JBLima!



"O TÚNEL DO TEMPO

Naquele belo domingo de início da primavera, Márcia, Alberto e os sobrinhos Marília e Gabriel, conforme planejaram, às nove horas já estavam na plataforma 2 da estação ferroviária de Santo André. Todos ansiosos para chegarem ao destino, Paranapiacaba, onde estava sendo realizada a I FLIPARANAPIACABA, feira de literatura promovida por um grupo de literatos de Santo André.
A chegada da composição não demorou. Sua lotação estava regular, de modo que o grupo não teve dificuldade em adentrar no trem, e de se acomodar num conjunto de poltronas próximas.
Paranapiacaba, como todos sabem, trata-se de um distrito histórico do município, que nasceu em virtude da estrada de ferro construída pelos ingleses que vieram explorar o transporte, originando no local uma típica vila inglesa. 
Ela fica bem no alto da Serra do Mar. Dali, como o significado do nome indica, traduzindo-se do tupi-guarani, avista-se o mar, numa paisagem deslumbrante. Seu trajeto até o litoral é íngreme, sendo que a descida de trem é feita através do chamado sistema “endless hope” (sem fim), o funicular. A paisagem é maravilhosa, pois, além da mata densa, há inúmeras cachoeiras, atraindo os praticantes de esportes radicais, que utilizam o caminho para chegarem ao litoral. É deveras perigosa a descida a pé, sendo comum grupos se perderem durante o trajeto.
Bem, além de usufruírem a beleza natural do lugar, Márcia, Alberto e os sobrinhos, iam com o objetivo de visitar a feira de literatura, como amantes que são de livros.
A viagem não é demorada, mesmo porque, após a parada em Santo André, a composição segue direto até o local desejado. Sendo uma região montanhosa, a estação férrea fica na parte baixa da vila, enquanto que as atividades da feira, no Clube Lyra Serrano, se realizam na parte alta.
Porém, ao descerem do trem algo inesperado, diferente aconteceu.
Uma nuvem, uma bruma desceu sobre eles, não demorando mais que alguns segundos, e eles se viram saindo de um verdadeiro túnel do tempo, vestidos à moda da época imperial em que viveu Irineu Evangelista de Souza, o Barão e Visconde de Mauá, o idealizador e custeador da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, em 1867. Os construtores ingleses denominaram-na São Paulo Railway Company-SPR. Seria sua inauguração. Num lampejo, leram cartazes anunciando a presença, naquela hora e dia, daquele a quem se devia a existência do lugar, o Visconde. O Imperador Dom Pedro II, por motivos de saúde, não poderia comparecer. 
Todavia, tal como aconteceu, em segundos se deu a volta à realidade, e Márcia, Alberto, Marília e Gabriel seguiram o caminho em direção ao local do evento, ainda aturdidos pelo insólito acontecimento de que foram personagens.
Por alguns momentos, foram como membros da corte real brasileira.
Dias depois, pela manhã, encontraram sob a porta, as fotografias dentro de um envelope onde se lia:
Com os cumprimentos do Senhor Irineu Evangelista de Souza, Barão de Mauá..."



José Bueno Lima