terça-feira, 11 de outubro de 2011

Mais uma história de Claudia helena villela de andrade.



"O ouro do cosmo
 Cláudia helena villela de andrade

                Todo mundo sabe como é, ou já brincou de fazer o copo andar em cima de uma mesa, cercado por pedacinhos de papéis com as letras do alfabeto, na penumbra da noite. Depois de uma oração, o dedo indicador sobrepõe-se ao copo emborcado e lá vai ele, o copo, escorregando pelas letrinhas, revelando inúmeras coisas sobre os participantes. Adolescente geralmente pergunta “com quem vou casar?”.
                Mas houve um tempo em que, na minha família, isso era brincadeira de adulto. Coisas incríveis aconteceram e não vou contá-las todas aqui, pois poucos acreditam nisso e aprendi que a fé é coisa muito individual. Cada um sabe da sua. O fato é que, nesta brincadeira, ao mesmo tempo em que você encontra verdades, encontra mentiras também. Há sempre um espírito brincalhão de plantão, pronto para te passar a perna e depois sair rindo de você pelo umbral afora. Nós, espíritas, seguidores de Jesus Cristo, com base no evangelho codificado por Alan Kardec, fundador do Espiritismo Cristão, que erroneamente somos identificados como "kardecistas", não costumamos brincar com isso. Demonstrações desse tipo são utilizadas por outras doutrinas, que não a nossa. Porém, naquela época, a família católica gostava desses desafios e — como quase todo espírita nasceu católico e quase todo católico gosta de mexer com o sobrenatural, mesmo não admitindo isso, brincamos muito com os espíritos. Até demais!
                 Para narrar o que quero, antes preciso explicar um pouco como funciona o mundo espiritual. Ninguém é adivinho. Isso não existe. Nem mesmo os espíritos. A única diferença entre nós e eles é que eles não possuem mais a massa corporal e nós ainda a possuímos. Nossa sabedoria e nosso caráter continuam os mesmos de quando partimos dessa para a outra vida. Somos, lá no cosmo, a continuação do que somos  aqui. Portanto, se alguém perguntar a um espírito que, enquanto encarnado era um matemático, se ele sabe sobre o corpo humano e suas doenças, provavelmente, ele responderá que não sabe. Se ele for um espírito de baixa categoria, ainda preso às coisas terrenas e descrente em Deus, vai fazer gozação e brincadeiras. Vai mentir e divertir-se às custas do seu interlocutor. Por isso, conversar com um espírito requer prática e sabedoria. Tem gente por aí que acha que se o espiritismo fosse verdade, teríamos as soluções dos problemas do mundo nas mãos. Ignorância de quem pensa assim. Ninguém é adivinho, nem traz as respostas sobre tudo no bolso. Muito menos se ganha na loteria com números ditados por espíritos. Não é este o fundamento de nenhuma religião séria.
                Mas, voltando ao nosso assunto, naquele tempo eu tinha uns doze anos e havia acabado de fazer a primeira comunhão. Estudava com as freiras do Sacré-Coeur de Marie, cuja tia era uma freira Provincial da congregação do Sagrado Coração de Maria. Educação francesa, rígida, pai supercatólico. A mãe não, pois ela era uma pesquisadora e estudou a fundo diversas religiões. Quando morreu, estava bem próxima às religiões da Índia. Ela deixava-nos escolher, sem pressão. Fazia suas pesquisas no seu silêncio habitual, para não criar nenhum clima de hostilidade com o marido e sua irmã freira. Para se ter uma idéia da confusão, minha mãe e sua irmã pertenciam à uma família judaico- portuguesa, refugiada no Brasil, em Santa Rita de Jacutinga e Rio Preto, Minas Gerais, como "cristãos novos". Uma bagunça! E assim somos todos brasileiros.
                Estávamos todos na Fazenda X (não vou dizer o seu nome correto, para evitar invasões), na Mantiqueira, subida da Estrada Rio-Caxambu, onde papai tinha umas terrinhas num lugar bem antigo. A casa-grande havia passado por uma reforma, mas ainda guardava os ares dos tempos passados. Assoalho de tábuas, móveis seculares, não havia luz elétrica, nem telefone. A luz de moenda era fraca e quase nunca funcionava direito. O lampião e a vela eram mais rápidos. Sem televisão, a noite era triste para as crianças, que de tanto brincar durante o dia, apagavam cedo e nem ligavam para a falta do aparelho. Mas numa determinada época, a moda era acabar de jantar e arrumar a mesa do copo, como se fôssemos jogar baralho. Como haviam ocorrido muitas coincidências com papai e mamãe, eles, atacados por uma falta de juízo louca e pela curiosidade, eram os primeiros a sentar-se na tal mesa. Diziam que era preciso mais gente para que a corrente se fortificasse. Como não havia outros adultos, pegavam as crianças mesmo.
                Na primeira noite, apareceu na mesa um espírito de uma mulher que se dizia amante de um ex-senhor que habitara aquelas terras. Ela teria sido escrava e, descoberta pela Sinhá, teria sido assassinada pela patroa. Porém, antes de morrer, havia visto quando o seu senhor, numa noite, em segredo, enterrara um tesouro em um determinado local do pasto que passava atrás da casa. Para um espírito soletrar essa história, demorava horas. Ele se cansava e nós também, pois isso é dito letra por letra e as frases são montadas por algum participante. Então, de repente, ele dizia que tinha que partir, pois alguém o chamava. Voltaria na noite seguinte para dar mais instruções. Assim o copo parava até o dia seguinte.
                 Eu nem dormia direito, tamanha a minha excitação. Papai começou a achar que ficaria rico. No seu delírio, já havia comprado todas as fazendas da região. Mamãe já planejava a tão sonhada volta ao mundo, o apartamento novo na Avenida Atlântica, os presentes para os filhos. Meus irmãos mais velhos já se viam de fusca novo, andando em Copacabana. Roupas de marcas famosas, jóias, etc. Eu sonhava com a Disneylândia e com uma égua andaluza, que havia visto num circo. Conhecia tesouros de histórias de pirata e de um livro infantil de Maria José Dupré chamado "A ilha perdida". Ao mesmo tempo em que eu ficava alegre com a possibilidade de ficar rica, sentia um medo enorme daqueles espíritos que faziam o copo andar. Não tinha jeito, à noite dormia no meio da cama dos pais. E nem adiantava ninguém reclamar, pois pelo chão, os irmãos mais velhos, espalhavam colchonetes e ali dormiam também.
                 O dia seguinte se arrastava. Não havia modo de passar depressa. Só depois do jantar falaríamos de novo com a tal escrava e ela daria novas instruções. Assim chegou a hora. O Pai Nosso foi rezado e papai a chamou. Não me lembro agora o nome que ela dizia ter. Então, ela veio. Começou falando que da varanda da casa-grande, calculando-se uma diagonal para a esquerda, a exatos cem metros, havia uma grande mangueira. Muito antiga e de raízes profundas. Ali deveríamos calcular uma outra diagonal para a direita, caminhar não sei mais quantos passos e chegar à beira de um riacho. Da beira do riacho, andaríamos mais alguns passos para o leste e chegaríamos a um pasto enorme, coberto de capim alto. Deveríamos entrar mato adentro e procurar um grupo de pedras de vinte a trinta centímetros de altura. Numa dessas pedras, haveria um "x", talhado. Mas não adiantava ninguém procurar o sinal, pois meu irmão Luiz era quem o acharia primeiro. Deveríamos retirar a pedra do lugar e cavar um buraco enorme, até encontrar o tal tesouro.
                Nada disso poderíamos fazer àquela hora da noite, então, seria mais outra madrugada de medo e de excitação passada na fazenda.
                Na manhã seguinte, fomos todos tirar as medidas e, acredite quem quiser, estavam absolutamente certas. Da maneira que ela contou. Todos os detalhes. A mangueira, o riacho, o capim alto, o grupo de pedras e o "x" achado pelo meu irmão Luiz numa determinada pedra. Juro por tudo quanto é mais sagrado. Meus irmãos ainda vivem e são testemunhas disso.
                Não podíamos chamar os empregados para fazer esse trabalho. Meu pai achava que eles poderiam nos matar, se realmente achássemos o tal tesouro. Tínhamos que fazer tudo com as próprias mãos e, ainda por cima, disfarçadamente, sem ninguém notar.
                Neste dia havia um primo conosco, de uns dezesseis anos, talvez. Mamãe disse-lhe “cava, Ricardo, que se acharmos o tesouro, eu te dou um fusca”. Ricardo não pensou duas vezes, tirou a calça e a camisa e, de cueca, colocou as mãos na terra. Cavávamos com o que podíamos. Com o que tínhamos ali. O dia inteiro e nada. No buraco, achamos apenas madeira serrada, como a que sustenta a terra nas laterais, o que era estranho para o local. Nada de ouro.
                Isso durou algum tempo. Quando a noite chegava, íamos falar com a tal escrava, dizer a ela que não havia nada. Não havia ouro ali. Que ela consultasse melhor sua lembrança. Que fosse atrás da alma do tal senhor. Ela insistia, dizia que éramos fracos, que não estávamos cavando direito. No dia seguinte, lá estávamos de novo, cavando e cavando. Ficamos assim, uma semana inteira. Nada. Não achamos nada.
                Uma noite, papai resolveu dizer desaforos ao espírito. Veio um outro, que não era a tal escrava, e disse que não ia embora. Que ficaria ali pra sempre. O copo começou a correr rápido pela mesa. Papai mandou que ele se fosse e começou a rezar sem parar, enquanto ordenava ao espírito que fosse embora, em nome de Jesus. Depois de muito tempo, o copo parou. Estávamos brancos e trêmulos. Dormi muitas noites na cama deles. Passei a gostar mais da minha égua campolina chamada Bailarina. Papai proibiu aquela brincadeira em casa, terminantemente. Jogou até o tal copo fora. Nenhum ouro. Nada. Voltamos à nossa vida normal e continuamos rindo muito dessa história.
                Hoje entendo o que se passou. Fomos vítimas de espíritos galhofeiros, que deviam rir de nós o tempo todo. Papai morreu católico. Mas, no fundo, sabia bem da existência dos espíritos. Só não queria dar o braço a torcer. Mamãe não se deixava enganar. Pesquisava. Eu, depois de adulta, tornei-me espírita e sei bem do que falo. E como sei! O ouro deve ter ficado no cosmo. Quem sabe, um dia, vamos achá-lo por lá.
               Ainda bem que já fui à Disneyworld! 


Conto publicado em meu livro Prosas do ninho, vencedor do Premio Aureo Nonato como livro de memórias, concedido pela Prefeitura de Manaus em 2007"

II Dia Valeparaibano de Contar Histórias... continua!



Quando me perguntam se vale a pena ficar pesquisando sobre o Vale do Paraíba, sempre respondo que é o que gosto de fazer, e aí seguem as perguntas de sempre. Eis mais um motivo, dentre tantos que já comentei: conhecer pessoas e seus talentos, suas histórias, suas visões de mundo, seus encantamentos. Ainda estou recebendo histórias e claro, as colocarei no blog. O tempo anda escasso, mas sempre que for possível, vou postando. Agradeço muito o companheirismo por um mundo melhor. A gente começa assim, em casa!
Paz e bem!
Sônia Gabriel


Obrigada, Cláudia, esteja sempre em sua casa, aqui conosco.



"À margem da vida e do rio 
              Claudia helena villela de andrade
            

            O mundo é muito grande. Muito. Tão grande que o atravessamos a pé. É logo ali o fim dele. Depois da curva do rio. Logo ali.
              Ela era filha de uma índia de tribo do Paraná. O pai, ninguém sabe, ninguém viu, mas supunha-se pelo seu tipo, ter sido, um daqueles louros descendentes de alemães que aportavam por lá e deitavam-se com as nativas emprenhando-as ou causando-lhes doenças. Por isto, ela afirmava que havia nascido na fronteira do Paraná com a Alemanha.
          Aos nove anos foi vendida pelo pajé para um sexagenário que a violava e que a carregou para morar no interior de São Paulo, em Lorena, na beira do rio Paraíba do Sul. Aos onze anos era mãe. Apanhava do homem, como se filha fosse. Brincava de boneca com seu bebê e, aos quatorze, ficou viúva. E só. Ficou só. Só com seu bebê. Ela, o bebê e o rio. Porque o rio passava pelo mundo inteiro. Pelo seu mundo. Inteirinho. Pelo seu mundo todo.
        Um dia, caminhou tão longe que não soube voltar. Pensou que estivesse retornando para a sua tribo, mas a direção era oposta. Com o bebê no colo foi margeando as águas que tão bem conhecia e que acreditava fazerem fronteira da Alemanha com o Paraná. Foi quando se deu conta de que o rio não acabava mais e de que a Alemanha tinha ficado para trás, nos louros cabelos dos filhos do Paraná e do seu suposto pai. Cansou-se, trocou o rumo, subiu a pé a Serra da Bocaina e foi parar no sertão de Bananal. Ela e seu bebê.
            Numa tapera de estrada fez a vida. Fez a vida sem saber o que era. Por comida, leite e farinha. Por esteira no chão e pedaço de pão.
           De manhã cedinho, agachava-se na beira do rio para molhar o rosto. Com as mãos em concha coletava aquela água barrenta e, além de beber, farejava para ver se ela trazia algum cheiro conhecido da raiz de sua terra. Nada. Nunca mais achou o caminho de volta.
           Os anos passavam. Ela e sua cria viviam como animais. Carentes de saúde, comida, conhecimento. A escola era o instinto ou o que algum passante dizia ter ouvido falar. Nenhum asseio, nenhum cuidado também. Tomava erva do mato como remédio e sobrevivia com a mandioca e a banana, reminiscência da infância indígena. Também nunca mais engravidou.
          Um dia um fazendeiro levou-a para trabalhar na cozinha da sua fazenda lavando pratos. Aprendeu um pouco mais da vida. Mas apenas o que queria, em sua ignorância crônica e voraz. Nesse estágio, o ser humano, embrutecido assim, não entende muito bem o que ensinamos. Torna-se teimoso porque acha que seu sofrimento lhe deu toda a sabedoria do mundo. Nunca acha que podemos saber mais do que ele.
          Alguns anos depois, não se sabe bem como nem o porquê, ela desceu a serra da Bocaina com seu filho, homem feito, e foi morar numa cidade próxima. Com homens se envolveu, pois ainda era bonita, a cabocla. Sem sorte, entretanto, foi esfaqueada por homem enciumado e quase morreu. O corpo perfurado 15 vezes. Então, com medo, trocou de nome, fugiu sozinha, largando o filho e, nas margens do rio para onde se dirigiu, encontrou sua alma gêmea, igual em sorte e desamparo. Juntos, margeando a vida, vieram parar aqui na minha casa.
           Chegou com o nome de Wilma, mas dizia ser, na verdade, Maria Isabel. Wilma era nome de guerra ou de fuga, sei lá. Não tinha nenhum documento. Nada. Não falava coisa com coisa. Mas sabia negociar, combinar salário e mentir. Junto com ela, o companheiro, um negro de canela fina, trinta anos mais novo, de nome Antônio, trabalhador rural com documentos e referências. Eu podia, claramente, ver seu comprometimento mental. Era vagaroso, meio imbecil, completamente subnutrido, porém sabia assinar e mexer no jardim. Minha mãe, já viúva nesse tempo, o contratou. Era um casal atípico. Ninguém havia visto nada igual. Suas roupas eram trapos coloridos e remendados. A casa em que moravam era de uma sujeira e pobreza de dar dó. Não adiantava falar, arrumar, etc. Eles não admitiam essa intromissão. A cama do casal era enfeite. Eles dormiam no chão. Fogão a gás, nem era usado. Só cozinhavam no fogão de lenha. Banho, nem pensar. Eram imundos.
           Com pena, minha mãe tentava se aproximar para ajudar, ensinar, mas não era bem recebida. Nem ligavam para o que ela falava. Às vezes até concordavam, mas mal ela virava as costas tudo voltava a ser como antes. Dávamos a eles roupas e eles as cortavam, remendavam ou se desfaziam delas. Móveis e utensílios que cedíamos eram vendidos. Para se ter uma idéia do tamanho da ignorância, um dia a minha mãe colocou na casa deles uma televisão. Pensou que, assim procedendo, ajudaria aquele casal a se tornar menos bronco, mais dentro da realidade do mundo. Qual não foi sua surpresa ao ver a Wilma passar de costas pela televisão que o marido assistia. Minha mãe, observando aquilo, questionou e a resposta foi que “estavam dando tiros na tv e que as balas poderiam pegar nela”. A tv durou menos de um mês. Foi vendida. Desistimos de tentar tirá-los da caverna. Deixamos que eles vivessem suas vidas.
            Talvez o mundo seja mesmo do tamanho de um rio e as serras, não tão distantes assim. Um dia, meu tio que morava fora há muitos anos, veio nos visitar. Ele era um homem claro, enorme, de quase dois metros de altura e, passeando pelo quintal, topou com a Wilma, que imediatamente o reconheceu do sertão de Bananal, da fazenda que era de meu avô, onde ela trabalhara há mais de quarenta anos atrás. Os dois se abraçaram e recordaram muitas histórias do mato. Minha mãe, que já sentia muita pena do casal, ficou muito emocionada e, condoída, deixou-os viver como queriam. Em paz.
           Além de todas essas coisas, Wilma era rezadeira e benzedeira. Cobrava direitinho o serviço de ocultismo. Fazia trabalho de macumba, ensinava diversas simpatias como a de enterrar tesoura no terreiro para não cair raio em cima da casa, cobrir espelhos durante o temporal, tomar banho de sal grosso e de rosa branca para tirar mau olhado. Muita gente aparecia para se consultar com a feiticeira ou comprar suas garrafadas de remédio de ervas do mato. O povo simples acreditava nela de verdade.
          Minha mãe, da varanda, só olhava todo aquele movimento de gente na casa do casal. Sacudia a cabeça e dizia “lá vai a Wilma tomar dinheiro dos bobos. Para isso é inteligente e esperta”.
       Depois que minha mãe morreu, nós continuamos com eles. Deus nos acuda! Nos roubavam sem parar. Certa vez, a Wilma veio me vender uma pilha de discos long-play, todos assinados com meu nome, como a gente fazia antigamente. Discos velhos que eu tinha largado ao deus-dará há muito tempo. Ela roubava de mim e queria me vender de volta. Quando eu mostrava o meu nome escrito neles, ela negava e dizia ser conversa fiada. Eu desistia. Ou comprava de volta ou dizia pra ela vender para outra pessoa.
           A velhice de Wilma foi terrível. Não ia ao médico, pois dizia que Deus e os santos da macumba iriam sará-la. Arrastava-se pelo quintal apoiada num cajado. De longe, parecia um duende. Igual aos anões de cerâmica que enfeitam alguns jardins, o que me levou a, uma vez, me gabar de ter o próprio duende em casa. Que pecado.
          Um dia, cismei. Disse-lhe que se aprontasse, pois eu iria levá-la ao posto de saúde, por bem ou por mal. Suas pernas eram dois tonéis. No posto de saúde o médico não queria deixá-la sair. Ela está morrendo. Precisa ser internada para exames e tratamento, disse-me ele. Quando procurei por ela, já havia desaparecido num táxi, com o marido. Voltei para casa e ela, então, me confessou ter muito medo de hospital, por conta daquelas facadas que tinha levado e que a deixaram seis meses internada, quase à morte. Perguntei se preferia morrer então. Naquele exato momento, ela arregalou os olhos e me prometeu que, no dia seguinte, se internaria.
         O dia seguinte não chegou. Wilma, no banheiro, caiu dura e morta. Eu havia pressentido a morte nos seus olhos. Alguma coisa me dizia para levá-la ao hospital. Ainda bem que o fiz, pois me sentiria muito mal se não tivesse agido assim.
          Morrer em casa é uma agonia. Não fosse uma conversa ao pé de ouvido com o médico e um vereador amigo, ela iria para autópsia que é realizada em outra cidade e somente três dias depois eu poderia enterrá-la.
         Levei-a ao cemitério com toda a sua pobreza e ignorância. Maria Isabel sem sobrenome no seu atestado de óbito. Pai desconhecido, mãe desconhecida. Deixa um filho pelo mundo afora.
            O caixão desceu triste e solitário à cova rasa doada pela prefeitura aos pobres da cidade de Itatiaia, bem na beira do Rio Paraíba do Sul. O rio que fazia a fronteira da Alemanha com o Paraná, como ela dizia.
         O marido virou um bêbado e depois de todos esses anos tivemos que mandá-lo embora. Estava completamente fora de controle. Quando ele retornou do cemitério, juntou tudo que era dela, fez uma enorme fogueira no quintal e queimou. Nunca entendi o exato significado desse ato.
         Nada restou dela.
         Nada.
         Wilma viveu à margem da vida e do rio.
          Deve ter desaguado no mar.
          Como os rios.
  
Conto publicado em meu livro Prosas do ninho, vencedor do premio Aureo Nonato como livro de memórias concedido pela Prefeitura de Manaus/AM em 2007."


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Um Vale de Livros: Jacqueline Baumgratz e Alcemir Palma.



"Hoje,07 de outubro de 2011, lançamento dos livros “Mestre Calangueiro Ernesto Vilela ” do Alcemir Palma e  “Cultura Popular do Vale do Paraíba” da Jacqueline Baumgratz, a partir das 19 horas.
O lançamento acontecerá no Espaço Cultural Rancho do Tropeiro – Rua Ambrósio Molina, 184 - Distrito de Eugênio de Melo – São José dos Campos."




Eu fui, estava tudo ótimo, show com Beto Quadros, livros lindos. Parabéns, Jacqueline e Alcemir! Obrigada pela gentileza e atenção com que fomos recebidos, minha família e eu. Todos os presentes estavam muito animados. Tudo de bom!
Sônia Gabriel


terça-feira, 4 de outubro de 2011

A Aparecida - Mistérios do Vale


Em 1717, um importante representante da Coroa, o Conde de Assumar, Dom Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, Governador da província de São Paulo, estaria de passagem pela Vila de Guaratinguetá e foi solicitado aos pescadores que trouxessem muito peixe para a festa de recepção e estadia da importante visita e toda a sua comitiva. Corria entre os pescadores a preocupação por saberem que há tempos o rio não estava oferecendo peixe o suficiente, a época não era boa. Preocupados com a solicitação que lhes fora feita, três pescadores, Felipe Pedroso, João Alves e Domingos Garcia foram em busca do pescado. Tentaram muito e nada conseguiram. Antes de voltarem sem nada, propuseram-se lançar as redes mais um pouco. Ao puxar a rede de volta João Alves sentiu que tinha peso e, lentamente, trouxe à tona um estranho objeto: o corpo de uma santa. O pescador colocou a parte da imagem dentro do barco e sentindo-se envolto em um mistério, lançou novamente a rede e desta vez trouxe à tona a cabeça da santa. Quando percebeu que as partes se encaixavam e, tomado de uma incompreensão do que aquilo representava chamou para se aproximarem de seu barco, Filipe Pedroso e Domingos Garcia, que foram em sua direção. Percebendo aquele fato que para eles só poderia ser um sinal de Deus, os três pescadores reverenciaram a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Guardaram a imagem num cantinho do barco e lançaram novamente suas redes ao rio e foram tantos os peixes pescados que concluíram só poder ser um milagre. A partir de então, a santa achada nas águas passou para a devoção do povo com o nome de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
Dizem alguns que a história de nossa Senhora Aparecida começaria um pouco antes, em Jacareí, onde uma senhora muito devota de Nossa Senhora da Conceição, dedicava-lhe todos os dias um momento de oração. A senhora tinha um marido muito rude e bruto que certa feita, já aborrecido com a dedicação da esposa para com a Santa, teria quebrado a imagem e a jogado no rio, para desgosto da esposa.



O livro Mistérios do Vale pode ser adquirido por meio do:

soniamgabriel@gmail.com

Valor: 25,00

Divirta-se com as lendas, histórias e causos do Vale do Paraíba!
Sônia Gabriel

Um Vale de Livros: Sandra R A Nascimento.



Está animado mesmo! Mais um lançamento muito especial...

Todas as faces talentosas de Paulo Barja...





Aproveitem e vistem o blog do BãoCantá:
http://baocanta.blogspot.com/2011/09/marchinha-nova-machado-errado-prbarja.html
(nessa postagem há o link para a gravação/vídeo), curtam o Machado Errado, muito bom!

Um Vale de Livros: Poeta Moraes.



Que mês cheio de talentos!
Nem pensar em perder...

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Escambo 51

                                                   
                                                   




Este nosso Escambo é para a galerinha, as histórias foram escritas pelos alunos de Paraibuna. Quem leva?


Paz e bem!
Sônia Gabriel







Escambo 50


Nosso Escambo saiu (olhar nos comentários), é da Gabriele, ela já recebeu e esperamos que se divirta com o livro.
Paz e bem!
Sônia Gabriel

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Espetáculo



Aproveitem...
Eu me emocionei, ri, chorei, senti saudade!
Voltei para casa comovida com minhas lembranças,
com as lembranças compartilhadas.
No aconchego do lar, abracei e beijei os meus e a mim.
Um sentimento de casa, chá e bolinho nos invade e a vida fica mais sentida,
mais amanhecida, a gente pensa no tempo, esse nosso eterno amante.

Sônia Gabriel

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Escambo 49



Novo Escambo.
Uma delícia de trabalho, acabei de ler o meu e viajei no tempo.
Tem um para quem quiser saber como se organizava
 a vida da sociedade em Paraibuna, em 1907.
Quem leva?


Paz e bem!
Sônia Gabriel

Depoimento de Ester Quadros sobre as lendas do Mistérios do Vale.



Caros amigos, abaixo o depoimento de Ester Quadros sobre seu competente trabalho na Casa Vó Laura. É muito gratificante saber que o trabalho que fazemos contribui muito além do que podemos imaginar.
Agradeço muito.
Paz e bem!
Sônia Gabriel



"Oi Luminosa Sonia,
bom dia.

Parabéns por seu trabalho inspirado no compromisso com a história, com a memória coletiva e minhas melhores vibrações de sucesso com os seus projetos, sobretudo a nova edição dos Mistérios do Vale.

(...)Tem a minha admiração e fraternura,

Ester Quadros"







O RECURSO DAS LENDAS DO LIVRO MISTÉRIOS DO VALE.

Na Casa de Repouso Vó Laura, realizamos encontros com abordagens grupais, que caracterizam uma roda de conversa. A finalidade dessas abordagens é promover uma estimulação global para se manter um bem estar geral. O público atendido são os idosos residentes, atualmente com 18 pessoas, 13 de feminino, 5 masculino. O público atendido, são pessoas com mais de 60 anos, que precisam de cuidados de terceiros devido aos estados de patologias crônicas agravadas com o avanço da idade ou com patologias relacionadas ao processo de envelhecimento, sendo na maioria com vínculos familiares e com baixa renda e escolaridade.

O objetivo das intervenções utilizando a contação de histórias, como as lendas do livro Mistérios do Vale, estão relacionados a recuperação e atualização da memória social, cultural, bem como da história de vida.

Apresenta-se a lenda através da leitura escolhida pelo grupo participante. Em seguida se inicia a conversa, com abordagem dialógica, para estimular com o uso do recurso de técnicas de reminiscências fazendo perguntas que remetem as recordações que passam a ocorrer no momento atual promovendo a atualização da memória cultural e a recuperação de um identidade pessoal. E realizado o encontro semanal, e estimula também o aspecto sócio interativo, e cognitivo pertinente as necessidades de atenção as formas adaptadas e possíveis para auxiliar na reabilitação no sentido de minorar as perdas cognitivas, sociais e funcionais no dia a dia.

O maior benefício é a atualização da memória social e cultural, indicada na melhoria de auto estima e sentimento de pertencimento a sociedade.

As pessoas idosas residentes atualmente são de origem das cidades do Sul de Minas, de outras aqui do Vale, como Caçapava, Paraibuna, e cidades do interior do oeste Paulista.De modo geral os contos do livro Mistérios do Vale, remetem as lembranças integrantes da memória coletiva, e promovem

um resgate desta memória no seu contexto cultural, permitindo uma atualização que promove imediatamente a melhoria da auto-estima pois reativa no interior da pessoa sua reserva humana.

Profissionais Responsáveis pelo trabalho de Estimulação Global na Casa de Repouso Vó Laura- Assistente Social Gerontóloga Rosa Ester Quadros, Educadora Física e Gerontóloga-Ana Paula Melo Gomes- Parceria com a Secretaria Municipal de Esportes-SJC.

Citações Bibliográficas Sobre Reminiscências- “ Reminiscência é memória, lembrança, aquilo que se conserva na memória” é o ato ou o processo de relembrar o passado. ”Costuma ser uma ocorrência natural na vida de cada pessoa, mais notadamente freqüente á medida que avança o tempo de vida.” Essa capacidade de armazenar fatos e de relembrar eventos do passado são importantes indicativos da contribuição que pessoas com maior tempo de vida, idosas podem proporcionar ao desenvolvimento cultural na sociedade que vivemos.Cada história de vida é um importante recurso na construção de nossa cultura.”

Autora- Souza, Maria Elza- A arte de compartilhar memórias- Reminiscências integrando Gerações. Ed. Vozes-1999. Experiência- UFB- Tese dissertativa de mestrado.

Outra autora que enfatiza a memória coletiva, é a poeta Cora Coralina, quando cita-“ Alguém deve rever, escrever e assinar os autos do passado antes que o tempo passe tudo a raso.”


Ester Quadros